Author: fweise

  • consoada

    fiquei feliz em reecontrar meu EP de 68 com o Bandeira lendo uns poemas dele. Talvez eu devesse reclamar aqui minha nacionalidade pasargadense, mas vamos de “Consoada”:

    Quando a Indesejada das gentes chegar
    (Não sei se dura ou caroável),
    talvez eu tenha medo.
    Talvez sorria, ou diga:
    — Alô, iniludível!
    O meu dia foi bom, pode a noite descer.
    (A noite com os seus sortilégios.)
    Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
    A mesa posta,
    Com cada coisa em seu lugar.

    pois então digo eu:

    abri as portas do meu coração para que você entre

    arrumei toda a casa para que você venha

    mas vem —

    flores morrem à tua espera.


    se não for isso, há de ser o pneumotórax: trinta e três…

    ou melhor: um tango argentino.

  • olha

    parece que se passou uma eternidade em poucos dias

    eu teria tudo quanto é coisa pra contar

    mas vou me abster,

    por agora.

  • toda noite

    um rivotril pra me esquecer

  • que a nossa memória funcionasse
    como fitas magnéticas: que em vez
    de sinapses fôssemos como que
    óxidos metálicos e nossas cabeças,
    cabeçotes. por cima de ti bastaria
    uma tira de fita adesiva e
    sobre o que vivemos, eu gravaria
    todo um conta-giros de silêncios

    até que pra minha fita,
    eu inventasse
    uma nova ode
    à alegria.

  • os peixes que nadem

    MAS “há menos peixinhos nadando no mar…”

    — não, não há coisa nenhuma.

  • há pouco eu escrevia de amigdalite, azia e solidão
    (tive até que botar casaco)
    agora há pouco eu pensava
    ter visto as estrelas mas era o céu
    que tinha fechado, pensava
    num sono químico
    e lembrei ter deixado de escrever
    o que pensei sobre
    a hora dos figos minúsculos no terreiro
    ou o que deixei de pensar na hora dos tomateiros
    sobre um momento esquecido da tarde
    em que pensei que o mundo era um emaranhado de fios
    todos do teu cabelo, que cada palavra me fazia
    desfiar daqui até a raiz-

    os figos, sabe
    são flores invertidas –

    o poro único me informa o que andas a jogar no pc
    ínfima informação que acaricio como se preciosa
    como se atrás dela eu descobrisse todo teu segredo
    e tu te desnudasses de novo inteira ao friozinho
    dessa noite de janeiro.

  • sou feliz por poder olhar o céu estrelado e ver a via láctea se esgarçando de um canto ao outro; e ao baixar os olhos, uma constelação de vaga-lumes à beira do rio que ouço correr.

    (mentira, nos últimos muito dias a água tem atrapalhado)

  • que esse ciclone

    me levasse embora pelos cabelos

  • se os sonhos são território do impossível, nunca foram o da sua realização. se o que faz o sono é nos colocar desnudos bem perto daquilo que na vigília é desejo, faz isso para reiterar a angústia da impotência diante do impasse, com o qual se estabelece uma convivência, nesse regime paralelo que se dá sempre em torno do limite. estar de volta à escola e ter consciência de haver negligenciado o trabalho. ter que dirigir e conduzir um carro escada acima. estar por horas acompanhado de alguém a quem não se pode dirigir a palavra. ou o que o valha. na iminência ou antes dela acorda-se com uma pergunta roçando a língua, dali a pouco não se pensa mais nisso, e o resto é o seguimento do dia

    às vezes é bom acordar

    &

    sísifo, larga o carro e sobe a pé. só cuida pra não subir de joelho.

  • ao menos à noite refrescou um pouco.
    os dias agora correm, mas ainda são escorregadios
    na vertigem de um prazo.
    como se diz, tem dias e dias
    e horas e horas
    em que a memória se dissipa em meio às não sei quais ocupações da mente
    memória que toma corpo às duas da manhã, na hora mais que de dormir — ah, as nossas horas!
    memória que torna essa própria hora absurda, intolerável
    a hora fatal de todos os dias
    se dissipando de novo e se desfazendo aos poucos nos braços da química.