Author: fweise

  • pra hanna

    por mais que eu queira dizer o inverso daquele poema da Szymborska
    pra minha fiel companheira felina — que morrer,
    isso não se faz a um humano —
    os gatos, esses animais sábios e sorrateiros, elegantes até o fim
    têm sua própria maneira de morrer,
    discreta, privada, solitária:
    quando sabem que é chegada a hora,
    juntam suas últimas forças
    e literalmente vão embora
    expirar longe de seus humanos
    como se quisessem nos poupar a materialidade da morte.


    ainda que sem um corpo que deitar à terra
    neste trecho de grama,
    debaixo do pé de laranja
    onde ela gostava de nos ver regar a horta
    e lamber a água das folhas
    aqui, agora e sempre celebramos a memória da Hanna,
    que por quase vinte anos, foi
    e sempre será nossa menina.

  • Águas passadas

    (oder Schnee von Gestern)

    você me pergunta se as memórias
    do que vivemos e passou
    por acaso valem menos
    por terem passado.


    traduzi meio ensaio do freud
    pra tentar explicar, mas desisti:
    freud perde o falo diante de
    espíritos sensíveis como o seu
    ou o do jovem poeta que
    lhe perguntou exatamente isso
    na tal anedota.


    nem eu consigo ter grande fé
    na explicação.
    o que posso dizer: sim, a tristeza
    esteve lá, esse sal que tempera
    a vida sem parar.

    mas não desmereçamos doces lembranças
    ainda mais agora que o tempo lhes deu
    mais de uma demão de esquecimento.


    o que almejo quanto ao passado
    e às inevitáveis marcas, boas ou más ou agridoces
    (sempre agridoces)
    é um respeito que quase beire a reverência
    pelo precioso tempo que fez jus à minha vida.


    quanto ao futuro,
    espero que nos traga
    a serenidade dos anos
    acumuladas nas vísceras,
    longamente depurados.


    eu sempre quis desvendar
    seu segredo de esfinge
    mas talvez tenha fugido
    por temer o castigo de Édipo.


    (eis-me aqui mordendo a língua a falar de gregos:
    você lida mesmo com as coisas
    da ordem do inevitável)

  • ligustres (1)

    ligustres do vargedo
    guardam consigo
    o cheiro da infância e dos verões
    — até onde podem se lembrar
    o idoso pueril
    e o jovem senil:
    desde sempre.


    as cigarras graúdas
    (porque pequenas sempre as houve)
    anunciadoras do natal
    em outras paragens
    chegaram há poucos anos.


    aroma e canto
    hoje, diante do abismo
    carregam inspiração
    e melancolia


    como o vento que carrega
    o doce aroma dos ligustres
    através dos dias que escorrem


    enquanto as cigarras cantam


    até morrer

  • Mundart

    àqueles que ainda cultivam
    a língua de seus ancestrais

    Das ist ein Frosch“, digo eu.
    „dat is een Krot“, diz meu tio.


    Não sei falar nem escrever Hunsrückisch.
    Ou Platt? Oder was auch immer!


    “Sapo cururu, na beira do rio…

  • fita cromo é do caralho

    pro tio Élcio

    diz meu tio enquanto explica
    as diferenças todas “de la cinta”
    e mostra orgulhoso a coleção
    das mais variadas fitas cassete

    colocamos uma pra tocar,
    provavelmente algum dance
    anos 90 ou coisa do tipo

    se por acaso temos alguma
    nova variedade do “zingue-lingue”
    a primeira tragada já promete um
    “esse aqui é bom, é mentolado,
    já senti.”

    ao sabor da fumaça e da música
    é transportado à época de DJ,
    aos tempos da discoteca:

    — DJ Caco, toca aquela “Apolo in low”
    — “Apolo in low”? não conheço essa…
    — Aquela, do “Kwink”!

    calhou que a próxima música
    já engatilhada no toca-fita
    era mesmo “I want to break free”,
    do “Kwink”.

    como diria meu tio,
    “são muitos anos de surf”.

  • flyback

    para o tio Vitor,
    in memoriam

    quando eu era menino
    muito visitava
    meu tio-avô
    que fez um curso por correspondência
    e por aqui era a referência
    em tudo que dizia respeito
    a rádios e televisores
    tecnologias fantásticas
    de outras épocas.

    ao fim de todas as férias
    voltava sempre no ônibus com a carcaça
    de algum equipamento eletrônico
    irreparável.

    avidamente as dissecava
    como um biólogo que eviscera um sapo
    separando resistores, capacitores,
    válvulas e transformadores
    na tentativa de entender
    como tudo aquilo era possível

    (naquela época eu desconhecia a palavra solenóide
    nem sonhava com as integrais de linha
    da lei de gauss)

    quando as caixas de abelha
    as velhas televisões de tubo
    davam problema, era a ele que se recorria
    e o diagnóstico era certo:
    “tem que trocar o flyback”,
    o que até lhe rendeu essa alcunha.

    não muitos anos antes de morrer
    deu para minha mãe um rádio antigo
    um caixote de válvulas mágicas
    e como ela diria “gosto de botões de girar”

    *

    hoje tentei de novo fazer uma antena pra ele
    estendi um longo fio de arame
    ligado ao rádio numa das pontas
    e o rádio ligado na terra

    assim, as ondas ocasionais e invisíveis
    que andam sorrateiramente pelo ar
    podem induzir em meu arame
    uma corrente elétrica que por toda lei
    quer descer de volta à terra:
    calha que a ajudamos, mas não sem antes
    faze-la passar pelas entranhas do rádio.
    funciona. e agora, mesmo neste buraco
    rodeado de morros pra tudo que é lado
    pelo noturno milagre ionosférico
    me chegam pelas “ondas tropicais”
    até notícias do estrangeiro.

    o rádio só não toca,
    a gaita tão bem como ele tocava.

    se me perguntarem como aprendi a fazer antenas:
    foi com o flyback.

    Leoberto Leal / SC
    março de 2024.

  • schädle

    dizem que o grande goethe
    em sua escrivaninha em weimar
    — ou são tomé das letras,
    o que dá na mesma —
    tinha sobre sua escrivaninha
    além de uma medusa sem graça
    o crânio de seu amigo schiller:
    a única criatura no mundo
    viva ou morta
    capaz de entender a segunda parte
    do seu fausto.

    mesmo poetas geniais
    têm ossos do ofício.

  • 10 na prova de lírica

    — e que tipo de poema é esse?

    — uma canção.

    — Isso! Mas por quê? Quantas sílabas fortes ele tem?

    — Dizem que quatro ou cinco, ou algo assim.
    Mas na verdade, não sei contar e nem me importo.
    Não sou matemático, não sou engenheiro,

    pra conceber a poesia como um jogo de jambos e troqueus
    como alguém que brincasse de Lego.

    Eu leio o poema, eu ouço o poema,
    e ele me soa como uma canção.
    E isso me basta.

    O que ele causa em mim, me basta.
    Não faço questão de qualquer análise ou —
    Deus me livre! — interpretação.

    Deixem o poema ser o que ele é.
    Deixem o poema em paz.

  • eita, mais um

    1. um título de doutor
    ou a posição consagrada
    nada fazem pelo caráter
    ou pela visão de mundo
    de ninguém:

    pau que nasce torto
    morre torto.

    2. sugiro trocarem
    todas as janelas
    do prédio do meio
    por espelhos:
    vai continuar
    um inferno abafado
    mas assim,
    os grandes sábios
    melhor podem apreciar
    seu próprio ego
    incomensurável.

  • mais uns

    I.
    Filosofia é masturbação
    E crítica literária é gozar com o pau alheio.
    (máxima a ser escrita numa porta de banheiro da fflch)

    II.
    Filosofia é mesmo masturbação,
    Mas não posso negar que gosto
    de bater punheta.