
Aufbau und Gestalt von Insekten und anderen Gliedertieren

Aufbau und Gestalt von Insekten und anderen Gliedertieren
als ich ein kind war
war ich ein bild
im feingeschnitten rahmen
im rahmen war ein spiegel
und im spiegel war mein bild
— als kleiner junge
hatte ich ja
ein gar großer
spiegel —
auf dem bild war die wahrheit
denn im rahmen war ein spiegel
umgekehrt — doch immer noch
die wahrheit.
doch eines tages
weiß ich nicht wie
fiel der rahmen
aus meinen händen
weiß ich nicht wie
und zeriss sich mein bild
und zerbrach der spiegel sich
in tausenden von scherben
in den scherben
spiegelte sich das licht
und das licht war
immer noch die wahrheit
und so hab ich mich
die nach wahrheit suchenden
hände — zerschnitten
und der tropfender blut
vergieß über die scherben
und es wurde dunkel
und keine wahrheit
gab’s mehr.
lange starrte ich
in das leere des rahmens
ohne jede ahnung
wer ich denn war
und so verging die zeit
und die jahre vergingen
bis ich ‘ne leinwand
dort einrahmte
und mit meinen noch
blutigen fingern
dort selber
ein neues bild bemalte:
ein neus bild
von mir
und für mich.
(Nzingha Guy St. Louis [1957 ? – ?])
“[wie gut du riechst]”
wie gut du riechst
alles an dir
gefällt mir so
dein schleim
deine spucke
dein schweiß
dein blick
riecht deine hand noch nach mir
wenn du wüßtest
ich könnte dir
eine reinhauen
dich verprügeln
bis du blau bist
so gut gefällst du mir
ich stehe so auf dich
irch würde dich am liebsten aufschlitzen
vom loch
bis zur kehle
dein blut trinken
gib mir deinen augenblick
“[wie gut du riechst]”
como cheiras bem
de tudo em ti
eu gosto assim
teu catarro
teu cuspe
teu suor
teu olhar
estende de novo tua mão a mim
se tu soubesses
eu poderia te
dar uma sova
te espancar
até ficares azul
assim gosto de ti
estou tão a fim de ti
que preferiria rasgar tuas tripas
do cu até o pescoço
beber teu sangue
dá-me teu piscar de olhos
“[ja / es ist etwas kompliziert]”
ja
es ist etwas kompliziert
ich kann meine sachen nie auswendig
geht es dir auch so
ja
das geht mir auch so
ich kriege nie alles mehr so richtig zusammen
versuch es trotzdem
er versucht es
es hört sich gut an
weißt du
so ungefähr geht es
und am schluss bringt er sie dann um
ich grinse
ja wirklich
na wie denn
er grinst
er erwürgt sie
wir lachen beide
ach
sage ich lachend
erwürgend
er erwürgt sie
die lady aus panama
ja sagt er
und umarmt lachend meinen hals
“[ja / es ist etwas kompliziert]”
sim
é um pouco complicado
nunca dou jeito às minhas coisas
contigo também é assim?
sim
comigo também é assim
não consigo mais colocar tudo nos trilhos
mas tento mesmo assim
ele tenta
parece bom
sabe
segue mais ou menos assim
e no fim ele mata ela
eu sorrio
é mesmo
mas como
ele sorri
ele esgana ela
rimos os dois
ah
digo sorrindo
esganando
ele estrangula ela
the lady from panama
sim, ele diz
e sorrindo envolve meu pescoço
“[ich lebe]”
ich lebe
weil es
der ausdrückliche wunsch
meiner mutter war
trotz
der empörung
der öffentlichkeit
ich wuchs
mit gefühlen und wünschen
nichts
konnte mich daran hindern
sie scheiterten
mit ihren unzähligen versuchen
mich unbedeutend
zu halten
sie wollten
mich glauben machen
daß mischlinge
also ich
zwischen den stühlen sitzen
außerdem
sei ich
keine liebeszeugung
sondern
aus einer vergewaltigung
hervorgegangen
die ein affe
mit 46 chromossomen
an einer
deutschen
weißen
frau
begangen hat
ich bin
also
die töchter
eines affen
kam alsbad
zu dem entschluß
lieber ein halber affe
als ein deutsches hausschwein
ich habe
meine affenjugend
in schweinanstalten
verbracht
mein aufrechter gang
war ihnen unerträglich
letzendlich
haben sie
einsehen müssen
daß man aus einem affen
kein hausschwein machen kann
“[ich lebe]”
vivo
porque foi
o desejo expresso
da minha mãe
apesar do ultraje
ao público
cresci
com sentimentos e desejos
nada
poderia me impedir
eles falharam
com suas incontáveis tentativas
em me tomar como
insignificante
eles queriam
me fazer acreditar
que mestiços
ou seja, eu
não estão nem cá nem lá
além disso
eu não seria
um fruto do amor
mas sim
o fruto
de um estupro
cometido
contra uma
mulher
branca
alemã
por um macaco
com 46 cromossomos
eu sou
então
a filha
de um macaco
logo cheguei
à decisão
de que é melhor meio macaco
que um porco alemão
eu passei
minha juventude macaca
em instituições
de porcos
meu andar ereto
era insuportável pra eles
eventualmente
eles precisarão
entender
que de um macaco
não se pode fazer um porco.
“[die schwarze katze]”
die schwarze katze
mit den weichen pfoten
schnurrt
während ich dich mit
meiner schwarzen seele
ficke
du siehst
so traurig aus
wenn du kommst
ist es
weil du einsam bist
oder
möchtest du es nicht mehr sein
ich begehre dich so
komm doch
ich gebe dir
mein sehr schwarzes herz
“[die schwarze katze]”
a gata preta
com as macias patas
ronrona
enquanto eu
com minha alma preta
te fodo
tu sempre parece
tão triste
quando goza
é porque
és tão só
ou porque
não queres mais estar
eu te desejo tanto
vem, contudo
que eu te dou
meu muito preto coração
“[waghalsig stürzt sie sich]”
waghalsig stürzt sie sich
auf mein fleisch
sie reißt
an meiner lederhülle
sie stöbert
in meinen verstecken
nichts bleibt verborgen
was hast du da
gib es mir
ihre gierige zunge
zähne wie ein raubtier
sie beißt mir in die sehne
wie ein häutendes reptil
schleift sie ihren körper
an meiner hose ab
ich versuche ihrer heftigen möse
zu entkommen
keine gnade lächelt sie
lecken lecken…
ihre nasse möse stülpt sich über mein gesicht
sie stößt so heftig
ich piß dich an stöhnt sie
ihre lippen füllen meinen mund
ich habe die schnauze voll denke ich
ich piß dich an schreit sie
sie schießt mich ab
ihr strahl ist hart und heiß
ich kann nicht mehr schlucken
ich stehe drauf mach mich eng
ich denke nicht dran
aus sicherer entfernung sehe ich ihr fleisch
(heavy nuts)
und gehe
“[waghalsig stürzt sie sich]”
imprudente ela se precipita
à minha carne
ela rasga
minha meia de couro
ela fuça
naquilo que escondo
nada fica velado
o que tu tem aí
me dá
sua língua ávida
dentes como um predador
ela me morde o tendão
como um réptil que esfola
esfregando seu corpo
na minha calça
eu tento fugir da sua
buceta violenta
sem misericórdia, ela sorri
lambe, lambe…
sua buceta molhada cobre minha cara
ela geme tão forte
vou mijar em ti, ela geme
seus lábios preenchem minha boca
já me enchi disso, penso eu
vou mijar em ti, ela grita
ela me acerta e
seu jato é duro e quente
não consigo mais engolir
eu amo isso… vai, me aperta
não penso nisso
de uma distância segura vejo a carne dela
(heavy nuts)
e me vou.
(Rainer Maria Rilke, [1875-1926])
do “Livro da peregrinação”, em “O livro das horas”
Apaga-me os olhos, eu posso te ver
Arranca-me os ouvidos, posso te escutar
E sem os pés eu posso a ti correr
E sem a boca ainda posso te invocar
Quebra-me os braços, eu te abraço
Com meu coração, como com uma mão
Para-me o coração e meu cérebro irá pulsar
E se me ateares fogo à razão,
Então será no sangue que irei te carregar.
O fim da canção (Mascha Kaléko [1907-1975])
v3 (7.10.2025)
Queria te ver mais uma vez, como há anos
Pela primeira vez – não mais o posso.
Queria te ver mais uma vez como antes,
Quando éramos bons estranhos e nada mais.
Queria mais uma vez te ouvir perguntar
Quão jovem eu sou… ou que faço à noite –
E depois, no mal-nascido “tu”
Me dizer de amor aquelas mil palavras.
Queria de novo tanto desejar,
Te ver por horas mudo e apaixonado –
E chorar de novo, quando me chateasses,
As tantas vezes tolas lágrimas choradas.
– Tudo isso já era… e que se ria!
És outrem ou a culpa é minha?
Talvez dizer nenhum de nós o possa.
É incrível o que fazem alguns anos.
Queria de novo ler tuas cartas,
As palavras que só se entende amando.
Contudo, me parece, hoje já é tarde demasiado.
Quão cruel é a palavra “foi-se!”.
apud Mascha Kaléko, um pouco deformado
(Alle sieben Jahre)
A cada sete anos
Nos sábios livros pude ler:
A cada sete anos muda-se o teu ser.
A cada sete anos, percebem mulher e homem
Muda-se a alma, muda-se o abdômen.
Muda-se teu ódio e muda teu amar,
E em segredo, eu três vezes, quatro vezes sete a contar.
A cada sete anos, pois é verdade, sente.
Com preocupação vejo todos os casais
Será que sabem: sete anos e o que mais?
Pergunta minha muda sombra mesmo em teus braços
Quando estarão, amado, nossos sete anos gastos?
Da mão o outono me devora sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a ir:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala verdade.
Meu olho sobe até sexo da amada:
nos olhamos,
nos dizemos escuros
nos amamos como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas
como o mar no jorro de sangue da lua.
Ficamos abraçados à janela, eles nos observam
da rua:
é tempo de que se saiba!
É tempo de que a pedra se acomode a florir,
de que o desassossego bata um coração.
É tempo de que seja tempo.
É tempo.
o ginkgo biloba na janela aberta
do quarto de hospital
estende os braços
isso é um ginkgo biloba?, ela diz
você pode voltar a escrever sobre isso
a freira chega à sua cama e diz
amanhã a senhora quer se confessar e tomar comunhão?
e segura sua mão
eu digo ela não tem nenhum pecado, jamais
os tentilhões de meiões brancos
na folhagem seca
(Friederike Mayröcker)
Quando eu era menino,
Um deus muito me salvava
Da gritaria e das varas dos homens,
Eu brincava bem e seguro
Com as flores do bosque,
E as brisas celestes brincavam comigo.
E como tu alegras
O coração das plantas,
Quando elas a ti abrem
Seus tenros braços,
Assim alegraste meu coração,
Pai Hélio! E como Endímion,
Fui teu amado, Sagrada Lua!
Ah, vós fiéis
Amigáveis deuses!
Que soubésseis,
Como vos amou minha alma!
Outrora ainda não vos chamava
Pelos nomes, e também vós
Nunca me chamáveis,
como os homens se chamam
Como se conhecidos.
Mas eu vos conhecia melhor,
Que jamais conheci os homens,
Eu entendia o silêncio do éter,
As palavras dos homens nunca entendi.
A mim criou a melodia Do bosque sussurrante
E a amar aprendi Debaixo das flores.
A alma dos homens
É tal qual a água:
Do céu ela vem,
Ao céu ela ascende,
E logo sucumbe
De volta à Terra,
Em eterno oscilar.
Flui das alturas,
Do íngreme rochedo
A pura corrente,
Esguicha amável
Em névoa ondulante
À rocha polida,
E bem recebida
Flui como véu,
Corre suave
Às profundezas.
Erguem-se as rochas
Anteparam sua queda,
Espuma irritada
Gradualmente
Rumo ao vazio.
Em plano leito
Vaga pelo vale,
E no lago sereno
Contemplam sua face
Todos os astros.
O vento é o afável
Amante da onda;
Revolve do fundo
Furor espumante
Alma dos homens,
És tal como a água!
Destino dos homens,
És tal como o vento!
tradução: Florianópolis, 2014