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  • presságios

    latim chuva vendaval apagão
    destelhamento desconexão
    mais latim, busca por rede,
    email às pressas
    meia noite e meia
    ao chegar em casa
    no escuro desprovido de luz elétrica
    vi a leste nascer detrás de um morro marte
    o deus da guerra, vermelhinho
    a sudoeste vi um satélite:
    duas luzinhas num eixo fixo
    cruzando a minha constelação
    do escorpião
    enquanto fumava
    na claridade lunar
    vi as nuvens subindo
    vi o tempo fechar

    tomei meus calmantes
    amanhã é cedo!
    sete horas deus me livre
    encaixotei minhas coisas
    papelão, caneta, muita fita
    mais meio rivotril, pra garantir

    deixei uma vela acesa no corredor
    ao lado: um isqueiro e outra vela, pra repor.
    vai que… não custa, sabe-se lá

    antes de me deitar vi pela janela do quarto a lua quase cheia
    quase se pondo
    atrás de outro morro.

    amanhã é cedo!
    já zonzo, apago as velas do quarto
    me tampo
    encosto a cabeça no travesseiro
    e durmo
    enfim.

    Rio do Sul,
    30 de junho de 2020

  • setembro

    a luz faltou de novo
    essas chuvas quase mornas
    bem parecem a anunciação da primavera

    a luz faltou de novo
    ao longo do dia quatro ou cinco piscadas sinais
    nos telegrafando os efeitos dos temporais na região
    esta noite sonharei com enchentes

    a luz voltou em uma hora, dispensando pela metade
    os ofícios de antigo ritual doméstico

    a luz voltou em um minuto, talvez a avaria a consertar
    fosse mais próxima que esperado

  • rolos de filme

    dentre minhas primeiras memórias
    que remontam a pouco antes
    da virada do milênio, estão:
    a lata em que sentava sobre a cadeira
    pra poder alcançar a mesa

    o computador do meu tio,
    talvez windows 3.1
    cujo papel de parede ainda posso ver
    sempre que fecho os olhos

    o aparelho de som
    e tudo que com ele tinha a ver:
    as fitas cassete em inglês
    donde ecoavam intermináveis
    exercícios de listening
    com que se debatia minha mãe

    mas talvez a primeira de todas
    na calçada de mosaico verde e vermelho
    sentado ao degrau e tendo nas mãos
    o único artefato que conseguia me acalmar:
    uma câmera fotográfica

    vim a ter outra, também a filme e manivela
    que não teve mais conserto
    mas posso dizer, que tal como câmeras
    (porque o são, em tempo real)
    os olhos bem me acompanharam pela vida
    e aqui se revelam pela primeira vez
    alguns dos meus primeiros negativos.

  • vergangenes

    vou começar a postar aqui umas coisas pretéritas. quando eu souber a data, eu digo. quando não souber: é passado. depois que acabar com o passado, tento voltar ao agora. :*

  • paralaxe (1)

    tenho dois olhos

    um mais míope que o outro

    e o outro mais astigmático que que o um…

    tenho duas vistas

    por leves centímetros separadas

    duas perspectivas quase distintas

    diante o fundo fixo da vida.


    minhas vistas se desviam

    só bem pouquinho, mas o suficiente

    pra brincar com os dedos

    só um pouquinho pra determinar

    o caminho a seguir em frente.

  • consoada

    fiquei feliz em reecontrar meu EP de 68 com o Bandeira lendo uns poemas dele. Talvez eu devesse reclamar aqui minha nacionalidade pasargadense, mas vamos de “Consoada”:

    Quando a Indesejada das gentes chegar
    (Não sei se dura ou caroável),
    talvez eu tenha medo.
    Talvez sorria, ou diga:
    — Alô, iniludível!
    O meu dia foi bom, pode a noite descer.
    (A noite com os seus sortilégios.)
    Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
    A mesa posta,
    Com cada coisa em seu lugar.

    pois então digo eu:

    abri as portas do meu coração para que você entre

    arrumei toda a casa para que você venha

    mas vem —

    flores morrem à tua espera.


    se não for isso, há de ser o pneumotórax: trinta e três…

    ou melhor: um tango argentino.

  • olha

    parece que se passou uma eternidade em poucos dias

    eu teria tudo quanto é coisa pra contar

    mas vou me abster,

    por agora.

  • toda noite

    um rivotril pra me esquecer

  • que a nossa memória funcionasse
    como fitas magnéticas: que em vez
    de sinapses fôssemos como que
    óxidos metálicos e nossas cabeças,
    cabeçotes. por cima de ti bastaria
    uma tira de fita adesiva e
    sobre o que vivemos, eu gravaria
    todo um conta-giros de silêncios

    até que pra minha fita,
    eu inventasse
    uma nova ode
    à alegria.

  • os peixes que nadem

    MAS “há menos peixinhos nadando no mar…”

    — não, não há coisa nenhuma.