um rivotril pra me esquecer
Blog
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que a nossa memória funcionasse
como fitas magnéticas: que em vez
de sinapses fôssemos como que
óxidos metálicos e nossas cabeças,
cabeçotes. por cima de ti bastaria
uma tira de fita adesiva e
sobre o que vivemos, eu gravaria
todo um conta-giros de silênciosaté que pra minha fita,
eu inventasse
uma nova ode
à alegria. -
os peixes que nadem
MAS “há menos peixinhos nadando no mar…”
— não, não há coisa nenhuma.
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há pouco eu escrevia de amigdalite, azia e solidão
(tive até que botar casaco)
agora há pouco eu pensava
ter visto as estrelas mas era o céu
que tinha fechado, pensava
num sono químico
e lembrei ter deixado de escrever
o que pensei sobre
a hora dos figos minúsculos no terreiro
ou o que deixei de pensar na hora dos tomateiros
sobre um momento esquecido da tarde
em que pensei que o mundo era um emaranhado de fios
todos do teu cabelo, que cada palavra me fazia
desfiar daqui até a raiz-os figos, sabe
são flores invertidas –o poro único me informa o que andas a jogar no pc
ínfima informação que acaricio como se preciosa
como se atrás dela eu descobrisse todo teu segredo
e tu te desnudasses de novo inteira ao friozinho
dessa noite de janeiro. -
sou feliz por poder olhar o céu estrelado e ver a via láctea se esgarçando de um canto ao outro; e ao baixar os olhos, uma constelação de vaga-lumes à beira do rio que ouço correr.
(mentira, nos últimos muito dias a água tem atrapalhado)
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que esse ciclone
me levasse embora pelos cabelos
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se os sonhos são território do impossível, nunca foram o da sua realização. se o que faz o sono é nos colocar desnudos bem perto daquilo que na vigília é desejo, faz isso para reiterar a angústia da impotência diante do impasse, com o qual se estabelece uma convivência, nesse regime paralelo que se dá sempre em torno do limite. estar de volta à escola e ter consciência de haver negligenciado o trabalho. ter que dirigir e conduzir um carro escada acima. estar por horas acompanhado de alguém a quem não se pode dirigir a palavra. ou o que o valha. na iminência ou antes dela acorda-se com uma pergunta roçando a língua, dali a pouco não se pensa mais nisso, e o resto é o seguimento do dia
às vezes é bom acordar
&
sísifo, larga o carro e sobe a pé. só cuida pra não subir de joelho.
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ao menos à noite refrescou um pouco.
os dias agora correm, mas ainda são escorregadios
na vertigem de um prazo.
como se diz, tem dias e dias
e horas e horas
em que a memória se dissipa em meio às não sei quais ocupações da mente
memória que toma corpo às duas da manhã, na hora mais que de dormir — ah, as nossas horas!
memória que torna essa própria hora absurda, intolerável
a hora fatal de todos os dias
se dissipando de novo e se desfazendo aos poucos nos braços da química. -
narrativa breve
é de novo chegado o tempo das páginas em branco
de cartas em branco, de poemas em branco,
de trabalhos em branco, de um blog em branco:
vagas ideias no ar, carentes de estrutura
e na tela, a abstração da página,
o cursor piscando
tempo de comprar papel
repetir leituras, cafés,
cigarros e ansiedades…
andando em volta de casa
brincando de pôr um dedo na frente dos olhos
de abrir um e fechar o outro e ver
o mundo se deslocando um só pouquinho,
fechar os olhos e não ver mais nada
a matar o tempo exíguo
nesses dias íngremes rumo a uma escrita
desesperada e ingrata
que demanda sempre
o contrário do que realmente se quer,
que seja: dizer pouco
com muitas e muitas mais palavras. -
Hello world!
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