narrativa breve

é de novo chegado o tempo das páginas em branco

de cartas em branco, de poemas em branco, de trabalhos em branco, um blog em branco

vagas ideias no ar, carentes de estrutura

e na tela, a abstração da página,

o cursor piscando



tempo de comprar papel

e tempo de repetições: leituras,

café, cigarros e ansiedades;

tempo de andar pela casa

e mudar uns livros de lugar



pôr um dedo na frente dos olhos e brincar

de abrir um e fechar o outro e ver

o mundo se deslocando um só pouquinho,

fechar os olhos e não ver mais nada

a matar o tempo exíguo



tateando cego a caixa de lentes

que não funcionam para míopes,

a serem meticulosamente aplicadas

com um rigor pretensamente científico

a algo que simplesmente é

mas cala



nesses dias íngremes rumo a uma escrita

desesperada e ingrata

que demanda sempre

o contrário do que realmente se quer,

que seja: dizer pouco

com muitas e muitas mais palavras.

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