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chegar a esse lugar
sempre como chega
um forasteiro
ninguém te espera:
nem um cão, nem mesmo
uma pulga.
als ich ein kind war
war ich ein bild
im feingeschnitten rahmen
im rahmen war ein spiegel
und im spiegel war mein bild
— als kleiner junge
hatte ich ja
ein gar großer
spiegel —
auf dem bild war die wahrheit
denn im rahmen war ein spiegel
umgekehrt — doch immer noch
die wahrheit.
doch eines tages
weiß ich nicht wie
fiel der rahmen
aus meinen händen
weiß ich nicht wie
und zeriss sich mein bild
und zerbrach der spiegel sich
in tausenden von scherben
in den scherben
spiegelte sich das licht
und das licht war
immer noch die wahrheit
und so hab ich mich
die nach wahrheit suchenden
händen — zerschnitten
und der tropfender blut
vergieß über die scherben
und es wurde dunkel
und keine wahrheit
gab’s mehr.
lange starrte ich
in das leere des rahmens
ohne jede ahnung
wer ich denn war
und so verging die zeit
und die jahre vergingen
bis ich ‘ne leinwand
dort einrahmte
und mit meinen noch
blutigen fingern
dort selber
ein neues bild bemalte:
ein neus bild
von mir
und für mich.
O fim da canção (Mascha Kaléko [1907-1975])
v3 (7.10.2025)
Queria te ver mais uma vez, como há anos
Pela primeira vez – não mais o posso.
Queria te ver mais uma vez como antes,
Quando éramos bons estranhos e nada mais.
Queria mais uma vez te ouvir perguntar
Quão jovem eu sou… ou que faço à noite –
E depois, no mal-nascido “tu”
Me dizer de amor aquelas mil palavras.
Queria de novo tanto desejar,
Te ver por horas mudo e apaixonado –
E chorar de novo, quando me chateasses,
As tantas vezes tolas lágrimas choradas.
– Tudo isso já era… e que se ria!
És outrem ou a culpa é minha?
Talvez dizer nenhum de nós o possa.
É incrível o que fazem alguns anos.
Queria de novo ler tuas cartas,
As palavras que só se entende amando.
Contudo, me parece, hoje já é tarde demasiado.
Quão cruel é a palavra “foi-se!”.
apud Mascha Kaléko, um pouco deformado
(Alle sieben Jahre)
A cada sete anos
Nos sábios livros pude ler:
A cada sete anos muda-se o teu ser.
A cada sete anos, percebem mulher e homem
Muda-se a alma, muda-se o abdômen.
Muda-se teu ódio e muda teu amar,
E em segredo, eu três vezes, quatro vezes sete a contar.
A cada sete anos, pois é verdade, sente.
Com preocupação vejo todos os casais
Será que sabem: sete anos e o que mais?
Pergunta minha muda sombra mesmo em teus braços
Quando estarão, amado, nossos sete anos gastos?

H. J. STÖRIG, Das Problem des Übersetzens. Stuttgart 1963, 111.
„[o que significa a tradução], pode-se esclarecer com a mesma palavra, da qual preciso alterar apenas a sílaba tônica: „übersetzen ist übersétzen“, traducere navem [transpor o navio]. Pois quem se lança à viágem marítima e consegue tripular um navio e conduzí-lo a plenas velas à margem do outro lado, precisa ainda assim aportar onde há outro solo e sopram outros ares.“
a seguir seguem algumas reminescências de experimentos de tradução
por mais que eu queira dizer o inverso daquele poema da Szymborska
pra minha fiel companheira felina — que morrer,
isso não se faz a um humano —
os gatos, esses animais sábios e sorrateiros, elegantes até o fim
têm sua própria maneira de morrer,
discreta, privada, solitária:
quando sabem que é chegada a hora,
juntam suas últimas forças
e literalmente vão embora
expirar longe de seus humanos
como se quisessem nos poupar a materialidade da morte.
ainda que sem um corpo que deitar à terra
neste trecho de grama,
debaixo do pé de laranja
onde ela gostava de nos ver regar a horta
e lamber a água das folhas
aqui, agora e sempre celebramos a memória da Hanna,
que por quase vinte anos, foi
e sempre será nossa menina.
(2024)
(oder Schnee von Gestern)
você me pergunta se as memórias
do que vivemos e passou
por acaso valem menos
por terem passado.
traduzi meio ensaio do freud
pra tentar explicar, mas desisti:
freud perde o falo diante de
espíritos sensíveis como o seu
ou o do jovem poeta que
lhe perguntou exatamente isso
na tal anedota.
nem eu consigo ter grande fé
na explicação.
o que posso dizer: sim, a tristeza
esteve lá, esse sal que tempera
a vida sem parar.
mas não desmereçamos doces lembranças
ainda mais agora que o tempo lhes deu
mais de uma demão de esquecimento.
o que almejo quanto ao passado
e às inevitáveis marcas, boas ou más ou agridoces
(sempre agridoces)
é um respeito que quase beire a reverência
pelo precioso tempo que fez jus à minha vida.
quanto ao futuro,
espero que nos traga
a serenidade dos anos
acumuladas nas vísceras,
longamente depurados.
eu sempre quis desvendar
seu segredo de esfinge
mas talvez tenha fugido
por temer o castigo de Édipo.
(eis-me aqui mordendo a língua a falar de gregos:
você lida mesmo com as coisas
da ordem do inevitável)
os igustres do vargedo
guardam consigo
o cheiro da infância e dos verões
— até onde podem se lembrar
o idoso pueril
e o jovem senil:
desde sempre.
as cigarras graúdas
(porque pequenas sempre as houve)
anunciadoras do natal
em outras paragens
chegaram há poucos anos.
aroma e canto
hoje, diante do abismo
carregam inspiração
e melancolia
como o vento que carrega
o doce aroma dos ligustres
através dos dias que escorrem
enquanto as cigarras cantam
até morrer