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  • sp/jun26

    chegar a esse lugar
    sempre como chega
    um forasteiro

    ninguém te espera:
    nem um cão, nem mesmo
    uma pulga.

  • BPS-1

    als ich ein kind war
    war ich ein bild
    im feingeschnitten rahmen
    im rahmen war ein spiegel
    und im spiegel war mein bild

    — als kleiner junge
    hatte ich ja
    ein gar großer
    spiegel —

    auf dem bild war die wahrheit
    denn im rahmen war ein spiegel
    umgekehrt — doch immer noch
    die wahrheit.

    doch eines tages
    weiß ich nicht wie
    fiel der rahmen
    aus meinen händen
    weiß ich nicht wie
    und zeriss sich mein bild
    und zerbrach der spiegel sich
    in tausenden von scherben

    in den scherben
    spiegelte sich das licht
    und das licht war
    immer noch die wahrheit

    und so hab ich mich
    die nach wahrheit suchenden
    händen — zerschnitten

    und der tropfender blut
    vergieß über die scherben
    und es wurde dunkel
    und keine wahrheit
    gab’s mehr.

    lange starrte ich
    in das leere des rahmens
    ohne jede ahnung
    wer ich denn war

    und so verging die zeit
    und die jahre vergingen
    bis ich ‘ne leinwand
    dort einrahmte

    und mit meinen noch
    blutigen fingern
    dort selber
    ein neues bild bemalte:

    ein neus bild
    von mir
    und für mich.

  • O fim da canção

    O fim da canção (Mascha Kaléko [1907-1975]) 
    
    v3 (7.10.2025)
    
    Queria te ver mais uma vez, como há anos 
    Pela primeira vez – não mais o posso.
    Queria te ver mais uma vez como antes,
    Quando éramos bons estranhos e nada mais.
    
    Queria mais uma vez te ouvir perguntar 
    Quão jovem eu sou… ou que faço à noite – 
    E depois, no mal-nascido “tu” 
    Me dizer de amor aquelas mil palavras.
    
    Queria de novo tanto desejar,
    Te ver por horas mudo e apaixonado –
    E chorar de novo, quando me chateasses,
    As tantas vezes tolas lágrimas choradas.
    
    – Tudo isso já era… e que se ria!
    És outrem ou a culpa é minha? 
    Talvez dizer nenhum de nós o possa. 
    É incrível o que fazem alguns anos.
    
    Queria de novo ler tuas cartas, 
    As palavras que só se entende amando. 
    Contudo, me parece, hoje já é tarde demasiado.
    Quão cruel é a palavra “foi-se!”. 

  • A cada sete anos

    apud Mascha Kaléko, um pouco deformado
    (Alle sieben Jahre)

    A cada sete anos
    Nos sábios livros pude ler:
    A cada sete anos muda-se o teu ser.
    A cada sete anos, percebem mulher e homem
    Muda-se a alma, muda-se o abdômen.
    Muda-se teu ódio e muda teu amar,
    E em segredo, eu três vezes, quatro vezes sete a contar.
    A cada sete anos, pois é verdade, sente.
    Com preocupação vejo todos os casais
    Será que sabem: sete anos e o que mais?
    Pergunta minha muda sombra mesmo em teus braços
    Quando estarão, amado, nossos sete anos gastos?

  • traducere navem

    H. J. STÖRIG, Das Problem des Übersetzens. Stuttgart 1963, 111.

    „[o que significa a tradução], pode-se esclarecer com a mesma palavra, da qual preciso alterar apenas a sílaba tônica: „übersetzen ist übersétzen“, traducere navem [transpor o navio]. Pois quem se lança à viágem marítima e consegue tripular um navio e conduzí-lo a plenas velas à margem do outro lado, precisa ainda assim aportar onde há outro solo e sopram outros ares.“

    a seguir seguem algumas reminescências de experimentos de tradução

  • pra hanna

    por mais que eu queira dizer o inverso daquele poema da Szymborska
    pra minha fiel companheira felina — que morrer,
    isso não se faz a um humano —
    os gatos, esses animais sábios e sorrateiros, elegantes até o fim
    têm sua própria maneira de morrer,
    discreta, privada, solitária:
    quando sabem que é chegada a hora,
    juntam suas últimas forças
    e literalmente vão embora
    expirar longe de seus humanos
    como se quisessem nos poupar a materialidade da morte.


    ainda que sem um corpo que deitar à terra
    neste trecho de grama,
    debaixo do pé de laranja
    onde ela gostava de nos ver regar a horta
    e lamber a água das folhas
    aqui, agora e sempre celebramos a memória da Hanna,
    que por quase vinte anos, foi
    e sempre será nossa menina.

    (2024)

  • Águas passadas

    (oder Schnee von Gestern)

    você me pergunta se as memórias
    do que vivemos e passou
    por acaso valem menos
    por terem passado.


    traduzi meio ensaio do freud
    pra tentar explicar, mas desisti:
    freud perde o falo diante de
    espíritos sensíveis como o seu
    ou o do jovem poeta que
    lhe perguntou exatamente isso
    na tal anedota.


    nem eu consigo ter grande fé
    na explicação.
    o que posso dizer: sim, a tristeza
    esteve lá, esse sal que tempera
    a vida sem parar.

    mas não desmereçamos doces lembranças
    ainda mais agora que o tempo lhes deu
    mais de uma demão de esquecimento.


    o que almejo quanto ao passado
    e às inevitáveis marcas, boas ou más ou agridoces
    (sempre agridoces)
    é um respeito que quase beire a reverência
    pelo precioso tempo que fez jus à minha vida.


    quanto ao futuro,
    espero que nos traga
    a serenidade dos anos
    acumuladas nas vísceras,
    longamente depurados.


    eu sempre quis desvendar
    seu segredo de esfinge
    mas talvez tenha fugido
    por temer o castigo de Édipo.


    (eis-me aqui mordendo a língua a falar de gregos:
    você lida mesmo com as coisas
    da ordem do inevitável)

  • ligustres (1)

    os igustres do vargedo
    guardam consigo
    o cheiro da infância e dos verões
    — até onde podem se lembrar
    o idoso pueril
    e o jovem senil:
    desde sempre.


    as cigarras graúdas
    (porque pequenas sempre as houve)
    anunciadoras do natal
    em outras paragens
    chegaram há poucos anos.


    aroma e canto
    hoje, diante do abismo
    carregam inspiração
    e melancolia


    como o vento que carrega
    o doce aroma dos ligustres
    através dos dias que escorrem


    enquanto as cigarras cantam


    até morrer