Category: traducere

  • 5 poemas de Guy St-Louis

    (Nzingha Guy St. Louis [1957 ? – ?])

    “[wie gut du riechst]”

    wie gut du riechst
    alles an dir
    gefällt mir so

    dein schleim
    deine spucke
    dein schweiß
    dein blick

    riecht deine hand noch nach mir
    wenn du wüßtest

    ich könnte dir
    eine reinhauen
    dich verprügeln
    bis du blau bist

    so gut gefällst du mir
    ich stehe so auf dich
    irch würde dich am liebsten aufschlitzen
    vom loch
    bis zur kehle
    dein blut trinken

    gib mir deinen augenblick

    “[wie gut du riechst]”

    como cheiras bem
    de tudo em ti
    eu gosto assim

    teu catarro
    teu cuspe
    teu suor
    teu olhar

    estende de novo tua mão a mim
    se tu soubesses

    eu poderia te
    dar uma sova
    te espancar
    até ficares azul

    assim gosto de ti
    estou tão a fim de ti
    que preferiria rasgar tuas tripas
    do cu até o pescoço
    beber teu sangue

    dá-me teu piscar de olhos

    “[ja / es ist etwas kompliziert]”

    ja
    es ist etwas kompliziert
    ich kann meine sachen nie auswendig
    geht es dir auch so

    ja
    das geht mir auch so
    ich kriege nie alles mehr so richtig zusammen
    versuch es trotzdem

    er versucht es
    es hört sich gut an

    weißt du
    so ungefähr geht es

    und am schluss bringt er sie dann um

    ich grinse
    ja wirklich
    na wie denn

    er grinst
    er erwürgt sie

    wir lachen beide
    ach
    sage ich lachend

    erwürgend
    er erwürgt sie
    die lady aus panama

    ja sagt er
    und umarmt lachend meinen hals

    “[ja / es ist etwas kompliziert]”

    sim
    é um pouco complicado
    nunca dou jeito às minhas coisas
    contigo também é assim?

    sim
    comigo também é assim
    não consigo mais colocar tudo nos trilhos
    mas tento mesmo assim

    ele tenta
    parece bom

    sabe
    segue mais ou menos assim

    e no fim ele mata ela

    eu sorrio
    é mesmo
    mas como

    ele sorri
    ele esgana ela

    rimos os dois
    ah
    digo sorrindo

    esganando
    ele estrangula ela
    the lady from panama

    sim, ele diz
    e sorrindo envolve meu pescoço

    “[ich lebe]”

    ich lebe
    weil es
    der ausdrückliche wunsch
    meiner mutter war

    trotz
    der empörung
    der öffentlichkeit

    ich wuchs
    mit gefühlen und wünschen
    nichts
    konnte mich daran hindern

    sie scheiterten
    mit ihren unzähligen versuchen
    mich unbedeutend
    zu halten

    sie wollten
    mich glauben machen
    daß mischlinge
    also ich
    zwischen den stühlen sitzen

    außerdem
    sei ich
    keine liebeszeugung

    sondern
    aus einer vergewaltigung
    hervorgegangen

    die ein affe
    mit 46 chromossomen
    an einer
    deutschen
    weißen
    frau
    begangen hat

    ich bin
    also
    die töchter
    eines affen

    kam alsbad
    zu dem entschluß
    lieber ein halber affe
    als ein deutsches hausschwein

    ich habe
    meine affenjugend
    in schweinanstalten
    verbracht

    mein aufrechter gang
    war ihnen unerträglich
    letzendlich
    haben sie
    einsehen müssen
    daß man aus einem affen
    kein hausschwein machen kann

    “[ich lebe]”

    vivo
    porque foi
    o desejo expresso
    da minha mãe

    apesar do ultraje
    ao público

    cresci
    com sentimentos e desejos
    nada
    poderia me impedir

    eles falharam
    com suas incontáveis tentativas
    em me tomar como
    insignificante

    eles queriam
    me fazer acreditar
    que mestiços
    ou seja, eu
    não estão nem cá nem lá

    além disso
    eu não seria
    um fruto do amor

    mas sim
    o fruto
    de um estupro

    cometido
    contra uma
    mulher
    branca
    alemã
    por um macaco
    com 46 cromossomos

    eu sou
    então
    a filha
    de um macaco

    logo cheguei
    à decisão
    de que é melhor meio macaco
    que um porco alemão

    eu passei
    minha juventude macaca
    em instituições
    de porcos

    meu andar ereto
    era insuportável pra eles
    eventualmente
    eles precisarão
    entender
    que de um macaco
    não se pode fazer um porco.

    “[die schwarze katze]”

    die schwarze katze
    mit den weichen pfoten
    schnurrt
    während ich dich mit
    meiner schwarzen seele
    ficke

    du siehst
    so traurig aus
    wenn du kommst

    ist es
    weil du einsam bist
    oder
    möchtest du es nicht mehr sein
    ich begehre dich so
    komm doch
    ich gebe dir
    mein sehr schwarzes herz

    “[die schwarze katze]”

    a gata preta
    com as macias patas
    ronrona
    enquanto eu
    com minha alma preta
    te fodo

    tu sempre parece
    tão triste
    quando goza

    é porque
    és tão só
    ou porque
    não queres mais estar
    eu te desejo tanto
    vem, contudo
    que eu te dou
    meu muito preto coração

    “[waghalsig stürzt sie sich]”

    waghalsig stürzt sie sich
    auf mein fleisch
    sie reißt
    an meiner lederhülle
    sie stöbert
    in meinen verstecken
    nichts bleibt verborgen
    was hast du da
    gib es mir
    ihre gierige zunge
    zähne wie ein raubtier
    sie beißt mir in die sehne
    wie ein häutendes reptil
    schleift sie ihren körper
    an meiner hose ab

    ich versuche ihrer heftigen möse
    zu entkommen
    keine gnade lächelt sie
    lecken lecken…
    ihre nasse möse stülpt sich über mein gesicht
    sie stößt so heftig
    ich piß dich an stöhnt sie
    ihre lippen füllen meinen mund
    ich habe die schnauze voll denke ich
    ich piß dich an schreit sie
    sie schießt mich ab
    ihr strahl ist hart und heiß

    ich kann nicht mehr schlucken
    ich stehe drauf mach mich eng
    ich denke nicht dran
    aus sicherer entfernung sehe ich ihr fleisch
    (heavy nuts)
    und gehe

    “[waghalsig stürzt sie sich]”

    imprudente ela se precipita
    à minha carne
    ela rasga
    minha meia de couro
    ela fuça
    naquilo que escondo
    nada fica velado
    o que tu tem aí
    me dá
    sua língua ávida
    dentes como um predador
    ela me morde o tendão
    como um réptil que esfola
    esfregando seu corpo
    na minha calça

    eu tento fugir da sua
    buceta violenta
    sem misericórdia, ela sorri
    lambe, lambe…
    sua buceta molhada cobre minha cara
    ela geme tão forte
    vou mijar em ti, ela geme
    seus lábios preenchem minha boca
    já me enchi disso, penso eu
    vou mijar em ti, ela grita
    ela me acerta e
    seu jato é duro e quente

    não consigo mais engolir
    eu amo isso… vai, me aperta
    não penso nisso
    de uma distância segura vejo a carne dela
    (heavy nuts)
    e me vou.

  • Rilke na sofrência

    (Rainer Maria Rilke, [1875-1926])
    do “Livro da peregrinação”, em “O livro das horas”

    Apaga-me os olhos, eu posso te ver
    Arranca-me os ouvidos, posso te escutar
    E sem os pés eu posso a ti correr
    E sem a boca ainda posso te invocar

    Quebra-me os braços, eu te abraço
    Com meu coração, como com uma mão
    Para-me o coração e meu cérebro irá pulsar
    E se me ateares fogo à razão,
    Então será no sangue que irei te carregar.

    (Rainer Maria Rilke)

  • Corona

    Da mão o outono me devora sua folha: somos amigos.
    Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a ir:
    o tempo retorna à casca.
    No espelho é domingo,
    no sonho se dorme,
    a boca fala verdade.
    Meu olho sobe até sexo da amada:
    nos olhamos,
    nos dizemos escuros
    nos amamos como papoula e memória,
    dormimos como vinho nas conchas
    como o mar no jorro de sangue da lua.
    Ficamos abraçados à janela, eles nos observam
    da rua:
    é tempo de que se saiba!
    É tempo de que a pedra se acomode a florir,
    de que o desassossego bata um coração.
    É tempo de que seja tempo.
    É tempo.

    (Paul Celan, 1952)

  • Mãe, oitenta e três, hospital

    o ginkgo biloba na janela aberta
    do quarto de hospital
    estende os braços
    isso é um ginkgo biloba?, ela diz
    você pode voltar a escrever sobre isso
    a freira chega à sua cama e diz
    amanhã a senhora quer se confessar e tomar comunhão?
    e segura sua mão
    eu digo ela não tem nenhum pecado, jamais
    os tentilhões de meiões brancos
    na folhagem seca

    (Friederike Mayröcker)

  • Quando eu era menino

    Quando eu era menino,
    Um deus muito me salvava
    Da gritaria e das varas dos homens,
    Eu brincava bem e seguro
    Com as flores do bosque,
    E as brisas celestes brincavam comigo.

    E como tu alegras
    O coração das plantas,
    Quando elas a ti abrem
    Seus tenros braços,

    Assim alegraste meu coração,
    Pai Hélio! E como Endímion,
    Fui teu amado, Sagrada Lua!
    Ah, vós fiéis
    Amigáveis deuses!
    Que soubésseis,
    Como vos amou minha alma!

    Outrora ainda não vos chamava
    Pelos nomes, e também vós
    Nunca me chamáveis,
    como os homens se chamam
    Como se conhecidos.
    Mas eu vos conhecia melhor,
    Que jamais conheci os homens,
    Eu entendia o silêncio do éter,
    As palavras dos homens nunca entendi.
    A mim criou a melodia Do bosque sussurrante
    E a amar aprendi Debaixo das flores.

    (Hölderlin, 1799)

  • Canção dos espíritos sobre as águas

    A alma dos homens
    É tal qual a água:
    Do céu ela vem,
    Ao céu ela ascende,
    E logo sucumbe
    De volta à Terra,
    Em eterno oscilar.

    Flui das alturas,
    Do íngreme rochedo
    A pura corrente,
    Esguicha amável
    Em névoa ondulante
    À rocha polida,
    E bem recebida
    Flui como véu,
    Corre suave
    Às profundezas.

    Erguem-se as rochas
    Anteparam sua queda,
    Espuma irritada
    Gradualmente
    Rumo ao vazio.
    Em plano leito
    Vaga pelo vale,
    E no lago sereno
    Contemplam sua face
    Todos os astros.

    O vento é o afável
    Amante da onda;
    Revolve do fundo
    Furor espumante
    Alma dos homens,
    És tal como a água!
    Destino dos homens,
    És tal como o vento!

    (Goethe, 1779)

    tradução: Florianópolis, 2014