Corona

Da mão o outono me devora sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a ir:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala verdade.
Meu olho sobe até sexo da amada:
nos olhamos,
nos dizemos escuros
nos amamos como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas
como o mar no jorro de sangue da lua.
Ficamos abraçados à janela, eles nos observam
da rua:
é tempo de que se saiba!
É tempo de que a pedra se acomode a florir,
de que o desassossego bata um coração.
É tempo de que seja tempo.
É tempo.

(Paul Celan, 1952)

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