flyback

para o tio Vitor,
in memoriam

quando eu era menino
muito visitava
meu tio-avô
que fez um curso por correspondência
e por aqui era a referência
em tudo que dizia respeito
a rádios e televisores
tecnologias fantásticas
de outras épocas.

ao fim de todas as férias
voltava sempre no ônibus com a carcaça
de algum equipamento eletrônico
irreparável.

avidamente as dissecava
como um biólogo que eviscera um sapo
separando resistores, capacitores,
válvulas e transformadores
na tentativa de entender
como tudo aquilo era possível

(naquela época eu desconhecia a palavra solenóide
nem sonhava com as integrais de linha
da lei de gauss)

quando as caixas de abelha
as velhas televisões de tubo
davam problema, era a ele que se recorria
e o diagnóstico era certo:
“tem que trocar o flyback”,
o que até lhe rendeu essa alcunha.

não muitos anos antes de morrer
deu para minha mãe um rádio antigo
um caixote de válvulas mágicas
e como ela diria “gosto de botões de girar”

*

hoje tentei de novo fazer uma antena pra ele
estendi um longo fio de arame
ligado ao rádio numa das pontas
e o rádio ligado na terra

assim, as ondas ocasionais e invisíveis
que andam sorrateiramente pelo ar
podem induzir em meu arame
uma corrente elétrica que por toda lei
quer descer de volta à terra:
calha que a ajudamos, mas não sem antes
faze-la passar pelas entranhas do rádio.
funciona. e agora, mesmo neste buraco
rodeado de morros pra tudo que é lado
pelo noturno milagre ionosférico
me chegam pelas “ondas tropicais”
até notícias do estrangeiro.

o rádio só não toca,
a gaita tão bem como ele tocava.

se me perguntarem como aprendi a fazer antenas:
foi com o flyback.

Leoberto Leal / SC
março de 2024.

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