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  • estática (1)

    mais um final de domingo
    de dentro do buraco literal
    todos arrastando apenas
    as tristes existências ao redor
    até mesmo o sol que nesse dia
    está ainda mais apressado
    na sua habitual preguiça vespertina
    mas não hoje, hoje já se acabou,
    hoje tudo fica meramente tal qual é:
    insuportável

    ainda mais que sempre
    arrasto a carcaça pra lá
    arrasto-a de novo pra cá
    pra essa cama que é o fim de tudo
    nada acontece nesse inverno
    nada, nada, nada

    tudo parece o grande prenúncio do nada
    mas estou cada vez mais tentando me convencer de que
    nada acontece em nenhum lugar
    que o tempo já acabou,
    que tudo é mesmo farsa e ilusão
    que é uma questão de momentos
    até que comecem a desmontar essa peça
    levem embora o cenário (eu incluso)

    e acabem logo com a palhaçada

    deve acontecer
    juro que vai acontecer
    precisa acontecer
    a qualquer instante.

  • dos rincões (1)

    ninguém vê a minha careta estranha quando subo a rua
    encasacado demais para um clima tão quente

    já estive na festa, já vi a festa acabar pra quem
    precariamente me acompanhava —

    já fui à última taberna local possível
    que a essa hora, em dia de notória e pública festa
    só serve mais aos que já tocaram (na festa).

    Lembro de alguém, lembro de olhares trocados numa fração de segundo,
    antes que chegasse outrem.
    E das saídas abruptas de quem também quer ir à festa, só não comigo.

    Tento erguer a cabeça e me orgulhar de algum tipo de livramento múltiplo e cabalístico, sei lá
    bem qual —
    enquanto vagueio por dentro e à margem
    de toda a „cidade“ em festa

    Essas ruas, que eu já acreditava tão minhas
    ruas iluminadas e tristes baforadas de palheiro
    em meio ao ruído dos carros que passam,
    dos precavidos que vão embora cedo
    aos desvairados, pra quem nunca é tarde.

    Tenho tábuas à minha volta e telhas sobre minha cabeça,
    meu trecho é sempre breve —
    e no entanto, carrego sempre a inevitável dose de cansaço
    que só se colhe com os anos e o faro e o fígado,
    de quem ficou fora da festa.

    Bendita sois vós, a juventude,
    e malditos nós velhos malsãos
    que tentam permanecer jovens! E ir à festa…

    Ergue a cabeça e leva dos pequenos segundos a tua festa — e com ela te basta.

  • bingo

    weder bier noch fleisch gewonnen
    doch genug bier und schnaps getrunken
    um mich halb in
    das mädchen mit dem roten kleid
    und lockigen haaren
    zu verlieben
    (oder wie würde man das am besten beschreiben?)
    fleisch esse ich sowieso nicht
    doch das fleisch würde iche gerne haben

  • versuch (2)

    glücklich sind die Blumen
    aus der Erde gepflückt
    in einer Vase gelegt
    mit genügendem Wasser,
    die vorbestimmte Zeit zu verleben.

    verlieben wir uns
    ahnen wir schon
    das ruhige Glück des Gartens

    verstecken wir uns in
    und voneinander

    um uns dann mal wieder
    auseinander
    zu zerpflücken.

    und die Blumen
    sind noch nicht einmal gewelkt

    autotradução é um trabalho ingrato que nunca funciona, então deixa pra lá…

  • versuch (1)

    jedes Wort
    ist ein Schlag
    und jeder Schlag
    macht mir
    das Herz
    schwerer
    doch lieber
    der Schmerz
    der Schläge
    als die Kälte
    des Schweigens
    der ewigen Stille
    ich weiß nur nicht
    wie lange
    es weiter
    schlagen
    wird.jedes Wort
    ist ein Schlag
    und jeder Schlag
    macht mir
    das Herz
    schwerer

    doch lieber
    der Schmerz
    der Schläge
    als die Kälte
    des Schweigens
    der ewigen Stille
    ich weiß nur nicht
    wie lange
    es weiter
    schlagen
    wird.

    März 2018

  • quelques mots sur les coeurs oscillants oder:

    noch eine Überlegung übers Umsteigen



    eine Achterbahn bin ich auch
    O Weier! Was für ein Schreck,
    wenn Schienen sich kreuzen!

    Ach, da blinkt’s ein Lichtlein!
    das mir sagt, rot oder grün:
    fürchte nicht, fahre fort
    oder sonst: steig doch um

    doch leider bin ich fehlsichtig:
    malheureusement
    daltonien

    Juli 2019

  • familie guckert

    com os olhos brilhantes diante de
    quatro receitas psiquiátricas
    cada vez entendo
    e me descubro mais
    minha avó
    que padeceu anos
    depressiva na cama
    antes de alcançar
    o único descanso possível.

    as juntas dos dedos machucadas
    de tanto bater na parede
    pra que fosse atendida
    o vício em balas escondidas
    na palma da mão, pra depois.

    o vício em benzodiazepinas:
    „por favor, alguém me dá um apraz!”
    hoje tão bem quanto ainda ouço
    posso repetir em uníssono:
    „oh Weier, oh Weier, oh Weier!”
    „Na Oma, wie geht es dir?
    Schlecht.”

    Immer schlecht.
    Eu não teria outra resposta.

    Até os pés inquietos herdei.
    E o ceticismo fatal
    „Ach, ihr weißt doch gar nichts —
    das ist alles Quatsch.”

    Se ao menos pudesse dizer:
    „Ja Oma, du hattest Recht.
    Du hattest schon immer Recht.“

  • duas peças para uma rede social finada

    carreiras de conversas mortas
    nos cemitérios das redes

    festa numa sala escura, abafada
    onde todo mundo fala
    mas não se ouve nada
    além do ruído boca-a-boca
    de quem fala mais alto
    pelos cantos murmúrios
    tacitamente percebidos
    quando não ignorados
    por completo
    cadáveres moribumbos
    que o feed há de logo sepultar

    do lado de caá
    faz frio e silêncio

    na grande ágora universal fala-se,
    mas ninguém ouve
    grita-se, mas o mundo é surdo

    *
    piador

    algumas linhas para o finado twitter
    piapiando aqui deste poleiro
    só recebo é a caca que cai
    dos poleiros de cima

  • herzelein

    Não há o que fazer com o coração.
    É uma caixa preta.
    Não há transplantes, nem enxertos
    de sentimentos.

    Não se pode dize-lo por que bater,
    e é tola a pretensão de querer
    bancar a pantomima do maestro:
    não há gestos nem batuta
    capazes de impor ritmo
    a um coração alheio.
    Não há o que fazer.
    É preciso aceitar as leis da natureza

    de que algumas cavidades
    só ressoam a uma determinada
    e precisa frequência.

    A harmonia
    é tão simples
    quanto é rara.

  • mais um caso

    o amor nas nuvens
    e acima dele pairante
    a questão pluviosa

    não sei prever o tempo
    mas sei que em algum momento
    vai chover

    podem ser gotas de chuvisco
    pode ser chuva torrencial
    se penso bem, acho que
    melhor chuvisco eventual
    que uma grande tempestade

    mas mais difícil é saber se vou

    me guardar da chuva
    dançar nu na chuva
    ou deixar que a chuva arda
    sobre minha carne
    escalpelada