O fim da canção (Mascha Kaléko [1907-1975])
v3 (7.10.2025)
Queria te ver mais uma vez, como há anos
Pela primeira vez – não mais o posso.
Queria te ver mais uma vez como antes,
Quando éramos bons estranhos e nada mais.
Queria mais uma vez te ouvir perguntar
Quão jovem eu sou… ou que faço à noite –
E depois, no mal-nascido “tu”
Me dizer de amor aquelas mil palavras.
Queria de novo tanto desejar,
Te ver por horas mudo e apaixonado –
E chorar de novo, quando me chateasses,
As tantas vezes tolas lágrimas choradas.
– Tudo isso já era… e que se ria!
És outrem ou a culpa é minha?
Talvez dizer nenhum de nós o possa.
É incrível o que fazem alguns anos.
Queria de novo ler tuas cartas,
As palavras que só se entende amando.
Contudo, me parece, hoje já é tarde demasiado.
Quão cruel é a palavra “foi-se!”.
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O fim da canção
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A cada sete anos
apud Mascha Kaléko, um pouco deformado
(Alle sieben Jahre)A cada sete anos
Nos sábios livros pude ler:
A cada sete anos muda-se o teu ser.
A cada sete anos, percebem mulher e homem
Muda-se a alma, muda-se o abdômen.
Muda-se teu ódio e muda teu amar,
E em segredo, eu três vezes, quatro vezes sete a contar.
A cada sete anos, pois é verdade, sente.
Com preocupação vejo todos os casais
Será que sabem: sete anos e o que mais?
Pergunta minha muda sombra mesmo em teus braços
Quando estarão, amado, nossos sete anos gastos? -
Corona
Da mão o outono me devora sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a ir:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala verdade.
Meu olho sobe até sexo da amada:
nos olhamos,
nos dizemos escuros
nos amamos como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas
como o mar no jorro de sangue da lua.
Ficamos abraçados à janela, eles nos observam
da rua:
é tempo de que se saiba!
É tempo de que a pedra se acomode a florir,
de que o desassossego bata um coração.
É tempo de que seja tempo.
É tempo. -
Mãe, oitenta e três, hospital
o ginkgo biloba na janela aberta
do quarto de hospital
estende os braços
isso é um ginkgo biloba?, ela diz
você pode voltar a escrever sobre isso
a freira chega à sua cama e diz
amanhã a senhora quer se confessar e tomar comunhão?
e segura sua mão
eu digo ela não tem nenhum pecado, jamais
os tentilhões de meiões brancos
na folhagem seca(Friederike Mayröcker)
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Quando eu era menino
Quando eu era menino,
Um deus muito me salvava
Da gritaria e das varas dos homens,
Eu brincava bem e seguro
Com as flores do bosque,
E as brisas celestes brincavam comigo.E como tu alegras
O coração das plantas,
Quando elas a ti abrem
Seus tenros braços,Assim alegraste meu coração,
Pai Hélio! E como Endímion,
Fui teu amado, Sagrada Lua!
Ah, vós fiéis
Amigáveis deuses!
Que soubésseis,
Como vos amou minha alma!Outrora ainda não vos chamava
Pelos nomes, e também vós
Nunca me chamáveis,
como os homens se chamam
Como se conhecidos.
Mas eu vos conhecia melhor,
Que jamais conheci os homens,
Eu entendia o silêncio do éter,
As palavras dos homens nunca entendi.
A mim criou a melodia Do bosque sussurrante
E a amar aprendi Debaixo das flores. -
Canção dos espíritos sobre as águas
A alma dos homens
É tal qual a água:
Do céu ela vem,
Ao céu ela ascende,
E logo sucumbe
De volta à Terra,
Em eterno oscilar.Flui das alturas,
Do íngreme rochedo
A pura corrente,
Esguicha amável
Em névoa ondulante
À rocha polida,
E bem recebida
Flui como véu,
Corre suave
Às profundezas.Erguem-se as rochas
Anteparam sua queda,
Espuma irritada
Gradualmente
Rumo ao vazio.
Em plano leito
Vaga pelo vale,
E no lago sereno
Contemplam sua face
Todos os astros.O vento é o afável
Amante da onda;
Revolve do fundo
Furor espumante
Alma dos homens,
És tal como a água!
Destino dos homens,
És tal como o vento!tradução: Florianópolis, 2014
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traducere navem

H. J. STÖRIG, Das Problem des Übersetzens. Stuttgart 1963, 111.
„[o que significa a tradução], pode-se esclarecer com a mesma palavra, da qual preciso alterar apenas a sílaba tônica: „übersetzen ist übersétzen“, traducere navem [transpor o navio]. Pois quem se lança à viágem marítima e consegue tripular um navio e conduzí-lo a plenas velas à margem do outro lado, precisa ainda assim aportar onde há outro solo e sopram outros ares.“
a seguir seguem algumas reminescências de experimentos de tradução
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pra hanna
por mais que eu queira dizer o inverso daquele poema da Szymborska
pra minha fiel companheira felina — que morrer,
isso não se faz a um humano —
os gatos, esses animais sábios e sorrateiros, elegantes até o fim
têm sua própria maneira de morrer,
discreta, privada, solitária:
quando sabem que é chegada a hora,
juntam suas últimas forças
e literalmente vão embora
expirar longe de seus humanos
como se quisessem nos poupar a materialidade da morte.
ainda que sem um corpo que deitar à terra
neste trecho de grama,
debaixo do pé de laranja
onde ela gostava de nos ver regar a horta
e lamber a água das folhas
aqui, agora e sempre celebramos a memória da Hanna,
que por quase vinte anos, foi
e sempre será nossa menina.(2024)
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Águas passadas
(oder Schnee von Gestern)
você me pergunta se as memórias
do que vivemos e passou
por acaso valem menos
por terem passado.
traduzi meio ensaio do freud
pra tentar explicar, mas desisti:
freud perde o falo diante de
espíritos sensíveis como o seu
ou o do jovem poeta que
lhe perguntou exatamente isso
na tal anedota.
nem eu consigo ter grande fé
na explicação.
o que posso dizer: sim, a tristeza
esteve lá, esse sal que tempera
a vida sem parar.mas não desmereçamos doces lembranças
ainda mais agora que o tempo lhes deu
mais de uma demão de esquecimento.
o que almejo quanto ao passado
e às inevitáveis marcas, boas ou más ou agridoces
(sempre agridoces)
é um respeito que quase beire a reverência
pelo precioso tempo que fez jus à minha vida.
quanto ao futuro,
espero que nos traga
a serenidade dos anos
acumuladas nas vísceras,
longamente depurados.
eu sempre quis desvendar
seu segredo de esfinge
mas talvez tenha fugido
por temer o castigo de Édipo.
(eis-me aqui mordendo a língua a falar de gregos:
você lida mesmo com as coisas
da ordem do inevitável) -
ligustres (1)
os igustres do vargedo
guardam consigo
o cheiro da infância e dos verões
— até onde podem se lembrar
o idoso pueril
e o jovem senil:
desde sempre.
as cigarras graúdas
(porque pequenas sempre as houve)
anunciadoras do natal
em outras paragens
chegaram há poucos anos.
aroma e canto
hoje, diante do abismo
carregam inspiração
e melancolia
como o vento que carrega
o doce aroma dos ligustres
através dos dias que escorrem
enquanto as cigarras cantam
até morrer