ode à psiquiatria

queria ter a serenidade dos psiquiatras
(ou traficantes, como diria um amigo meu)
que na maior tranquilidade te prescrevem
x, y, z, e te fazem acreditar que
dessa vez vai ficar tudo bem.

tudo bem, eu já aceitei que
preciso de medicamentos
eles tornam minha vida um pouco
mais suportável.

já desisti de procurar diagnóstico
ter uma página do DSM
pra chamar de minha.

já aceitei que preciso de terapia
como a vida precisa da água
pra fazer da tempestade
uma gota d’água.
(ainda que apoiado em mais muletas
do que tenho de braços a suportar)

só não me enganam
os psiquiatras descarados
que me testam pra saber
quanto eu, acostumado a ser
objeto, pagaria pra confiar
que todos meus problemas
seriam resolvidos por um sujeito
qualquer.

mais provavelmente,
os motivos são mais banais.

meu primeiro psiquiatra — aos dezesseis anos —
quis dar uma de louco pra cima de moi:
que cor é esse carimbo? — Amarelo.
E se eu disser que não? Como você vai provar?

Pobre doutor. Respirei do fundo da minha modéstia colegial.
E o poupei de uma boa aula de física. Poupei o miserável
de uma aula de filosofia. Poupei-o até de Goethe.
Ele não entenderia mesmo.

Diga-se: minha tia com a oitava série resolveu meu problema
que um médico metido a besta não resolveu.

Aliás, eu queria uma palavra em português
que equivalesse a „shrink“, porque acho
muito expressiva. Talvez seja mesmo
traficante.

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