tem plantas bonitas
mas guarnecidas
por afiados espinhos
quem quer apanhar uma rosa
ou mesmo uma amorinha
precisa pagar com sangue
e sai todo arranhado
assim também tem gente
que parece que vem enrolada
em arame farpado.
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pro goethe
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olha só:
os últimos dias foram mais escuros que noites de lua cheia, a neblina em volta dos morros
não tem a menor chance de se dissipar. Hoje já trovejou e choveu e a luz piscou duas vezes.
Dizem as ondas da televisão que um ciclone está se formando no mar. Dizem até que „pode“
nevar. Vai nevar onde, diz meu pai. Nas vacas gordas? No mundo novo? Não importa onde;
vem de muito que os fenômenos climáticos também sejam propagados e mitificados na
„cultura“, e por assim dizer, tornados vendáveis. Tudo entra nesse esquema. Mas olha agora
esse céu, o rabo do escorpião, percebes? A coroa austral? O rio aqui escorre rápido e vendo
estrelas de relance faço uma prece por quem mora em outros vales. Quem carreg -
wenn es regnet
dizem que a vó tem muito zelo,
pra não dizer ciúme, das suas sombrinhas
leve, mas pendure no banheiro
na varanda sombrinhas já foram levadas
desde que pra essa varanda há verões -
pausa
em breve,
outras tramas. -
tramas
contempla de perto a elaborada tessitura
compraz-te no emaranhado das cores
e sente o desvairado, fáustico desejo
de te imiscuir, mas camuflando-te.tenta conter teus instintos ferinos
de desenrolar as mais intricadas e
por isso mais fascinantes tramas,
desfiar a vida até a raíz do cabelo.deita só sobre teu tapete
como se sobre um esquecido
leito de folhas secas.solta tuas amarras e dorme,
sonha que aprendes a tecer
com encantadas linhas alheias. -
velha cerveja a sós
eu vejo
o nível da cerveja
baixando no copo
e deixando marcas
nas paredes
(que não sei explicar
por que me lembram
de algum ciclo reprodutivo exótico
estudado e esquecido
num livro de biologia
anos atrás)na medida que
dentro de mim
oscilam os níveis
da minha coragem
e da minha sanidadee também eles
deixam marcas
na parede do
reservatóriooco, oco, oco
-
podia ter sido ontem
sentado no chão da varanda
na casa da minha avó
a rua deserta
os grilos os barulhos da noite fresca de verão
um cachorro late ao longe
outro responde
uma vaca mugeo vento bate mansamente numa palmeira fazendo um farfalhar das folhas
do meu lado num vaso
o pinheiro do natal passado
já despido das luzes e trajes festivosum gato cruza a rua
um vizinho apaga uma luz
em algum lugar um talher cai no chão
e um pernilongo zombe no meu ouvidoacendo “o último zingue-lingue das férias”
pra logo ir dormir
amanhã é acordar cedo pra viajar
volta a sp
recomeçosinto uma garoazinha fina nas pernas
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finados
minha mãe foi no cemitério
capinar o mato que cobre a cova
da sua avóenquanto isso eu ouço o vento
derrubando árvores
destelhando casas
desmanchando tudoe espero, pacientemente
a chuva que nunca vem3/2/2020
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every tragedy demands a final act
para m.
vivemos numa tragédia tosca
decepada de ato final
suspensa no ar
anestesia que nunca acaba
*
às vezes o ato final acaba sendo um beijo
pra viagem. -
agulha
o mesmo tempo,
esse artesão tão hábilque sabe dar pontos e emaranhar vidas
também sabe desatá-los,
cortar linhas, cortar laços
desmanchar sua obra
e refazê-la a cada diaagora, na iminência da minha volta
e da necessidade de atar as pontas soltas
me pergunto se ainda te serve a agulha
e a que bordadosmas ao tempo não calha a piedade
muito menos esperanças de penélope.janeiro 2020