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  • azia

    a boca do estômago
    é como a porta do inferno
    — desguarnecida —

    por onde cáusticas labaredas
    sobem nos lambendo as entranhas
    ávidas por escapar pela boca
    ou quiçá
    pelas ventas

  • ode à psiquiatria

    queria ter a serenidade dos psiquiatras
    (ou traficantes, como diria um amigo meu)
    que na maior tranquilidade te prescrevem
    x, y, z, e te fazem acreditar que
    dessa vez vai ficar tudo bem.

    tudo bem, eu já aceitei que
    preciso de medicamentos
    eles tornam minha vida um pouco
    mais suportável.

    já desisti de procurar diagnóstico
    ter uma página do DSM
    pra chamar de minha.

    já aceitei que preciso de terapia
    como a vida precisa da água
    pra fazer da tempestade
    uma gota d’água.
    (ainda que apoiado em mais muletas
    do que tenho de braços a suportar)

    só não me enganam
    os psiquiatras descarados
    que me testam pra saber
    quanto eu, acostumado a ser
    objeto, pagaria pra confiar
    que todos meus problemas
    seriam resolvidos por um sujeito
    qualquer.

    mais provavelmente,
    os motivos são mais banais.

    meu primeiro psiquiatra — aos dezesseis anos —
    quis dar uma de louco pra cima de moi:
    que cor é esse carimbo? — Amarelo.
    E se eu disser que não? Como você vai provar?

    Pobre doutor. Respirei do fundo da minha modéstia colegial.
    E o poupei de uma boa aula de física. Poupei o miserável
    de uma aula de filosofia. Poupei-o até de Goethe.
    Ele não entenderia mesmo.

    Diga-se: minha tia com a oitava série resolveu meu problema
    que um médico metido a besta não resolveu.

    Aliás, eu queria uma palavra em português
    que equivalesse a „shrink“, porque acho
    muito expressiva. Talvez seja mesmo
    traficante.

  • confesso

    que tenho tomado comprimidos efervescentes
    só pelo prazer de assistir à efervescência>

    essa brancura mais branca
    que a parede do prédio do outro lado da rua
    reagindo com a água gelada
    se desfazendo na fronteira com o ar

    pelo mesmo motivo gosto também
    da água com gás

  • pro goethe

    tem plantas bonitas
    mas guarnecidas
    por afiados espinhos


    quem quer apanhar uma rosa
    ou mesmo uma amorinha
    precisa pagar com sangue
    e sai todo arranhado


    assim também tem gente
    que parece que vem enrolada
    em arame farpado.

  • olha só:

    os últimos dias foram mais escuros que noites de lua cheia, a neblina em volta dos morros
    não tem a menor chance de se dissipar. Hoje já trovejou e choveu e a luz piscou duas vezes.
    Dizem as ondas da televisão que um ciclone está se formando no mar. Dizem até que „pode“
    nevar. Vai nevar onde, diz meu pai. Nas vacas gordas? No mundo novo? Não importa onde;
    vem de muito que os fenômenos climáticos também sejam propagados e mitificados na
    „cultura“, e por assim dizer, tornados vendáveis. Tudo entra nesse esquema. Mas olha agora
    esse céu, o rabo do escorpião, percebes? A coroa austral? O rio aqui escorre rápido e vendo
    estrelas de relance faço uma prece por quem mora em outros vales. Quem carreg

  • wenn es regnet

    dizem que a vó tem muito zelo,
    pra não dizer ciúme, das suas sombrinhas
    leve, mas pendure no banheiro
    na varanda sombrinhas já foram levadas
    desde que pra essa varanda há verões

  • pausa

    em breve,
    outras tramas.

  • tramas

    contempla de perto a elaborada tessitura
    compraz-te no emaranhado das cores
    e sente o desvairado, fáustico desejo
    de te imiscuir, mas camuflando-te.

    tenta conter teus instintos ferinos
    de desenrolar as mais intricadas e
    por isso mais fascinantes tramas,
    desfiar a vida até a raíz do cabelo.

    deita só sobre teu tapete
    como se sobre um esquecido
    leito de folhas secas.

    solta tuas amarras e dorme,
    sonha que aprendes a tecer
    com encantadas linhas alheias.

  • velha cerveja a sós

    eu vejo
    o nível da cerveja
    baixando no copo
    e deixando marcas
    nas paredes
    (que não sei explicar
    por que me lembram
    de algum ciclo reprodutivo exótico
    estudado e esquecido
    num livro de biologia
    anos atrás)

    na medida que
    dentro de mim
    oscilam os níveis
    da minha coragem
    e da minha sanidade

    e também eles
    deixam marcas
    na parede do
    reservatório

    oco, oco, oco

  • podia ter sido ontem

    sentado no chão da varanda
    na casa da minha avó
    a rua deserta
    os grilos os barulhos da noite fresca de verão
    um cachorro late ao longe
    outro responde
    uma vaca muge

    o vento bate mansamente numa palmeira fazendo um farfalhar das folhas

    do meu lado num vaso
    o pinheiro do natal passado
    já despido das luzes e trajes festivos

    um gato cruza a rua
    um vizinho apaga uma luz
    em algum lugar um talher cai no chão
    e um pernilongo zombe no meu ouvido

    acendo “o último zingue-lingue das férias”

    pra logo ir dormir
    amanhã é acordar cedo pra viajar
    volta a sp
    recomeço

    sinto uma garoazinha fina nas pernas