minha mãe foi no cemitério
capinar o mato que cobre a cova
da sua avó
enquanto isso eu ouço o vento
derrubando árvores
destelhando casas
desmanchando tudo
e espero, pacientemente
a chuva que nunca vem
3/2/2020
minha mãe foi no cemitério
capinar o mato que cobre a cova
da sua avó
enquanto isso eu ouço o vento
derrubando árvores
destelhando casas
desmanchando tudo
e espero, pacientemente
a chuva que nunca vem
3/2/2020
para m.
vivemos numa tragédia tosca
decepada de ato final
suspensa no ar
anestesia que nunca acaba
*
às vezes o ato final acaba sendo um beijo
pra viagem.
o mesmo tempo,
esse artesão tão hábil
que sabe dar pontos e emaranhar vidas
também sabe desatá-los,
cortar linhas, cortar laços
desmanchar sua obra
e refazê-la a cada dia
agora, na iminência da minha volta
e da necessidade de atar as pontas soltas
me pergunto se ainda te serve a agulha
e a que bordados
mas ao tempo não calha a piedade
muito menos esperanças de penélope.
janeiro 2020
hoje na estação
enquanto esperava o amor
vi uma mulher louca
pegando o elevador
com sua sacola de catadora
ela apertava um botão
e ria, ria, ria
*
eu catando migalhas
catando cinzas
entre os dedos
assoprando feito louco
sim feito a mulher louca me vejo
ajoelhado diante do fogo
rindo, rindo
do peculiar da vida
do amor que não existe
do que só por um instante
poderia ter sido
eu morrerei de um câncer na garganta
morrerei de infarto, de AVC
morrerei de um câncer no esôfago
câncer ou embolia pulmonar
ou câncer de bexiga e rins
morrerei de cirrose hepática
terei trombose e as pernas amputadas
me farei morrer num surto psicótico
me farei morrer de dor de cabeça
furarei os olhos qual Édipo
ou me matarei de loucura apenas
eu morrerei jogado na frente de um carro
morrerei de metástases múltiplas
morrerei idealizando o mundo
no exato momento em que pulo
de um galho a outro, mais uma vez.
e no final, precisamente no final
partirei mais sozinho que cheguei.
mas antes de tudo isso,
por sequer um centésimo disso,
quando mais não houver corpo
ficarei espírito
e morrerei de amor.
para uma feiticeira de outros vales
em um segundo momento:
inspirado por uma moça
que mostrava o traseiro desnudo
à igreja
à noite
ao som de uma suíte gótica
tocada pelo próprio órgão
o incenso sobe em direção aos deuses
e bacantes diante das portas do templo
se prostram ensandecidas
e prestam
a mais digna
e obscena
homenagem
*
de manhã cedo
os passarinhos estão cantando,
louvando ao criador
chega essa hora em que
no meio do silêncio de 60Hz
abstraído o rio mais um ou outro bicho
e um crepitar fantasmagórico
dum saco de milho — bichado
embebido pela fumaça de cada dia
e cada hora, cada quarto ou menos
no meio do mais perpétuo silêncio
tudo grita de desespero
seres inanimados mais móveis
que meu esqueleto imóvel
gritam como eu, em sumo silêncio
e escancaram todos os vértices
por não saber pra onde fugir.
— querer é poder, saber é poder,
e as palavras, o suco da impotência.
mas acalmem-se todos,
que já logo badala o sino imaginário
marcando o momento fulminante
em que tudo que se promete mudar
continua tal igual a antes.
mais um final de domingo
de dentro do buraco literal
todos arrastando apenas
as tristes existências ao redor
até mesmo o sol que nesse dia
está ainda mais apressado
na sua habitual preguiça vespertina
mas não hoje, hoje já se acabou,
hoje tudo fica meramente tal qual é:
insuportável
ainda mais que sempre
arrasto a carcaça pra lá
arrasto-a de novo pra cá
pra essa cama que é o fim de tudo
nada acontece nesse inverno
nada, nada, nada
tudo parece o grande prenúncio do nada
mas estou cada vez mais tentando me convencer de que
nada acontece em nenhum lugar
que o tempo já acabou,
que tudo é mesmo farsa e ilusão
que é uma questão de momentos
até que comecem a desmontar essa peça
levem embora o cenário (eu incluso)
e acabem logo com a palhaçada
deve acontecer
juro que vai acontecer
precisa acontecer
a qualquer instante.
ninguém vê a minha careta estranha quando subo a rua
encasacado demais para um clima tão quente
já estive na festa, já vi a festa acabar pra quem
precariamente me acompanhava —
já fui à última taberna local possível
que a essa hora, em dia de notória e pública festa
só serve mais aos que já tocaram (na festa).
Lembro de alguém, lembro de olhares trocados numa fração de segundo,
antes que chegasse outrem.
E das saídas abruptas de quem também quer ir à festa, só não comigo.
Tento erguer a cabeça e me orgulhar de algum tipo de livramento múltiplo e cabalístico, sei lá
bem qual —
enquanto vagueio por dentro e à margem
de toda a „cidade“ em festa
Essas ruas, que eu já acreditava tão minhas
ruas iluminadas e tristes baforadas de palheiro
em meio ao ruído dos carros que passam,
dos precavidos que vão embora cedo
aos desvairados, pra quem nunca é tarde.
Tenho tábuas à minha volta e telhas sobre minha cabeça,
meu trecho é sempre breve —
e no entanto, carrego sempre a inevitável dose de cansaço
que só se colhe com os anos e o faro e o fígado,
de quem ficou fora da festa.
Bendita sois vós, a juventude,
e malditos nós velhos malsãos
que tentam permanecer jovens! E ir à festa…
Ergue a cabeça e leva dos pequenos segundos a tua festa — e com ela te basta.
weder bier noch fleisch gewonnen
doch genug bier und schnaps getrunken
um mich halb in
das mädchen mit dem roten kleid
und lockigen haaren
zu verlieben
(oder wie würde man das am besten beschreiben?)
fleisch esse ich sowieso nicht
doch das fleisch würde iche gerne haben