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  • conjuntivo

    hoje na estação
    enquanto esperava o amor
    vi uma mulher louca
    pegando o elevador

    com sua sacola de catadora
    ela apertava um botão
    e ria, ria, ria

    *
    eu catando migalhas
    catando cinzas
    entre os dedos
    assoprando feito louco

    sim feito a mulher louca me vejo
    ajoelhado diante do fogo

    rindo, rindo

    do peculiar da vida
    do amor que não existe
    do que só por um instante
    poderia ter sido

  • improvisação vagabunda a partir de Boris Vian

    eu morrerei de um câncer na garganta
    morrerei de infarto, de AVC
    morrerei de um câncer no esôfago
    câncer ou embolia pulmonar
    ou câncer de bexiga e rins
    morrerei de cirrose hepática
    terei trombose e as pernas amputadas
    me farei morrer num surto psicótico
    me farei morrer de dor de cabeça
    furarei os olhos qual Édipo
    ou me matarei de loucura apenas
    eu morrerei jogado na frente de um carro
    morrerei de metástases múltiplas
    morrerei idealizando o mundo
    no exato momento em que pulo
    de um galho a outro, mais uma vez.
    e no final, precisamente no final
    partirei mais sozinho que cheguei.
    mas antes de tudo isso,
    por sequer um centésimo disso,
    quando mais não houver corpo
    ficarei espírito
    e morrerei de amor.

  • kirche

    para uma feiticeira de outros vales


    em um segundo momento:
    inspirado por uma moça
    que mostrava o traseiro desnudo
    à igreja

    à noite
    ao som de uma suíte gótica
    tocada pelo próprio órgão
    o incenso sobe em direção aos deuses
    e bacantes diante das portas do templo
    se prostram ensandecidas

    e prestam
    a mais digna
    e obscena
    homenagem

    *

    de manhã cedo
    os passarinhos estão cantando,
    louvando ao criador

  • estática (2)

    chega essa hora em que
    no meio do silêncio de 60Hz
    abstraído o rio mais um ou outro bicho
    e um crepitar fantasmagórico
    dum saco de milho — bichado
    embebido pela fumaça de cada dia
    e cada hora, cada quarto ou menos
    no meio do mais perpétuo silêncio
    tudo grita de desespero
    seres inanimados mais móveis
    que meu esqueleto imóvel
    gritam como eu, em sumo silêncio
    e escancaram todos os vértices
    por não saber pra onde fugir.
    — querer é poder, saber é poder,
    e as palavras, o suco da impotência.

    mas acalmem-se todos,

    que já logo badala o sino imaginário
    marcando o momento fulminante
    em que tudo que se promete mudar
    continua tal igual a antes.

  • estática (1)

    mais um final de domingo
    de dentro do buraco literal
    todos arrastando apenas
    as tristes existências ao redor
    até mesmo o sol que nesse dia
    está ainda mais apressado
    na sua habitual preguiça vespertina
    mas não hoje, hoje já se acabou,
    hoje tudo fica meramente tal qual é:
    insuportável

    ainda mais que sempre
    arrasto a carcaça pra lá
    arrasto-a de novo pra cá
    pra essa cama que é o fim de tudo
    nada acontece nesse inverno
    nada, nada, nada

    tudo parece o grande prenúncio do nada
    mas estou cada vez mais tentando me convencer de que
    nada acontece em nenhum lugar
    que o tempo já acabou,
    que tudo é mesmo farsa e ilusão
    que é uma questão de momentos
    até que comecem a desmontar essa peça
    levem embora o cenário (eu incluso)

    e acabem logo com a palhaçada

    deve acontecer
    juro que vai acontecer
    precisa acontecer
    a qualquer instante.

  • dos rincões (1)

    ninguém vê a minha careta estranha quando subo a rua
    encasacado demais para um clima tão quente

    já estive na festa, já vi a festa acabar pra quem
    precariamente me acompanhava —

    já fui à última taberna local possível
    que a essa hora, em dia de notória e pública festa
    só serve mais aos que já tocaram (na festa).

    Lembro de alguém, lembro de olhares trocados numa fração de segundo,
    antes que chegasse outrem.
    E das saídas abruptas de quem também quer ir à festa, só não comigo.

    Tento erguer a cabeça e me orgulhar de algum tipo de livramento múltiplo e cabalístico, sei lá
    bem qual —
    enquanto vagueio por dentro e à margem
    de toda a „cidade“ em festa

    Essas ruas, que eu já acreditava tão minhas
    ruas iluminadas e tristes baforadas de palheiro
    em meio ao ruído dos carros que passam,
    dos precavidos que vão embora cedo
    aos desvairados, pra quem nunca é tarde.

    Tenho tábuas à minha volta e telhas sobre minha cabeça,
    meu trecho é sempre breve —
    e no entanto, carrego sempre a inevitável dose de cansaço
    que só se colhe com os anos e o faro e o fígado,
    de quem ficou fora da festa.

    Bendita sois vós, a juventude,
    e malditos nós velhos malsãos
    que tentam permanecer jovens! E ir à festa…

    Ergue a cabeça e leva dos pequenos segundos a tua festa — e com ela te basta.

  • bingo

    weder bier noch fleisch gewonnen
    doch genug bier und schnaps getrunken
    um mich halb in
    das mädchen mit dem roten kleid
    und lockigen haaren
    zu verlieben
    (oder wie würde man das am besten beschreiben?)
    fleisch esse ich sowieso nicht
    doch das fleisch würde iche gerne haben

  • versuch (2)

    glücklich sind die Blumen
    aus der Erde gepflückt
    in einer Vase gelegt
    mit genügendem Wasser,
    die vorbestimmte Zeit zu verleben.

    verlieben wir uns
    ahnen wir schon
    das ruhige Glück des Gartens

    verstecken wir uns in
    und voneinander

    um uns dann mal wieder
    auseinander
    zu zerpflücken.

    und die Blumen
    sind noch nicht einmal gewelkt

    autotradução é um trabalho ingrato que nunca funciona, então deixa pra lá…

  • versuch (1)

    jedes Wort
    ist ein Schlag
    und jeder Schlag
    macht mir
    das Herz
    schwerer
    doch lieber
    der Schmerz
    der Schläge
    als die Kälte
    des Schweigens
    der ewigen Stille
    ich weiß nur nicht
    wie lange
    es weiter
    schlagen
    wird.jedes Wort
    ist ein Schlag
    und jeder Schlag
    macht mir
    das Herz
    schwerer

    doch lieber
    der Schmerz
    der Schläge
    als die Kälte
    des Schweigens
    der ewigen Stille
    ich weiß nur nicht
    wie lange
    es weiter
    schlagen
    wird.

    März 2018

  • quelques mots sur les coeurs oscillants oder:

    noch eine Überlegung übers Umsteigen



    eine Achterbahn bin ich auch
    O Weier! Was für ein Schreck,
    wenn Schienen sich kreuzen!

    Ach, da blinkt’s ein Lichtlein!
    das mir sagt, rot oder grün:
    fürchte nicht, fahre fort
    oder sonst: steig doch um

    doch leider bin ich fehlsichtig:
    malheureusement
    daltonien

    Juli 2019