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  • Mundart

    àqueles que ainda cultivam
    a língua de seus ancestrais

    Das ist ein Frosch“, digo eu.
    „dat is een Krot“, diz meu tio.


    Não sei falar nem escrever Hunsrückisch.
    Ou Platt? Oder was auch immer!


    “Sapo cururu, na beira do rio…

  • fita cromo é do caralho

    pro tio Élcio

    diz meu tio enquanto explica
    as diferenças todas “de la cinta”
    e mostra orgulhoso a coleção
    das mais variadas fitas cassete

    colocamos uma pra tocar,
    provavelmente algum dance
    anos 90 ou coisa do tipo

    se por acaso temos alguma
    nova variedade do “zingue-lingue”
    a primeira tragada já promete um
    “esse aqui é bom, é mentolado,
    já senti.”

    ao sabor da fumaça e da música
    é transportado à época de DJ,
    aos tempos da discoteca:

    — DJ Caco, toca aquela “Apolo in low”
    — “Apolo in low”? não conheço essa…
    — Aquela, do “Kwink”!

    calhou que a próxima música
    já engatilhada no toca-fita
    era mesmo “I want to break free”,
    do “Kwink”.

    como diria meu tio,
    “são muitos anos de surf”.

  • flyback

    para o tio Vitor,
    in memoriam

    quando eu era menino
    muito visitava
    meu tio-avô
    que fez um curso por correspondência
    e por aqui era a referência
    em tudo que dizia respeito
    a rádios e televisores
    tecnologias fantásticas
    de outras épocas.

    ao fim de todas as férias
    voltava sempre no ônibus com a carcaça
    de algum equipamento eletrônico
    irreparável.

    avidamente as dissecava
    como um biólogo que eviscera um sapo
    separando resistores, capacitores,
    válvulas e transformadores
    na tentativa de entender
    como tudo aquilo era possível

    (naquela época eu desconhecia a palavra solenóide
    nem sonhava com as integrais de linha
    da lei de gauss)

    quando as caixas de abelha
    as velhas televisões de tubo
    davam problema, era a ele que se recorria
    e o diagnóstico era certo:
    “tem que trocar o flyback”,
    o que até lhe rendeu essa alcunha.

    não muitos anos antes de morrer
    deu para minha mãe um rádio antigo
    um caixote de válvulas mágicas
    e como ela diria “gosto de botões de girar”

    *

    hoje tentei de novo fazer uma antena pra ele
    estendi um longo fio de arame
    ligado ao rádio numa das pontas
    e o rádio ligado na terra

    assim, as ondas ocasionais e invisíveis
    que andam sorrateiramente pelo ar
    podem induzir em meu arame
    uma corrente elétrica que por toda lei
    quer descer de volta à terra:
    calha que a ajudamos, mas não sem antes
    faze-la passar pelas entranhas do rádio.
    funciona. e agora, mesmo neste buraco
    rodeado de morros pra tudo que é lado
    pelo noturno milagre ionosférico
    me chegam pelas “ondas tropicais”
    até notícias do estrangeiro.

    o rádio só não toca,
    a gaita tão bem como ele tocava.

    se me perguntarem como aprendi a fazer antenas:
    foi com o flyback.

    Leoberto Leal / SC
    março de 2024.

  • schädle

    dizem que o grande goethe
    em sua escrivaninha em weimar
    — ou são tomé das letras,
    o que dá na mesma —
    tinha sobre sua escrivaninha
    além de uma medusa sem graça
    o crânio de seu amigo schiller:
    a única criatura no mundo
    viva ou morta
    capaz de entender a segunda parte
    do seu fausto.

    mesmo poetas geniais
    têm ossos do ofício.

  • 10 na prova de lírica

    — e que tipo de poema é esse?

    — uma canção.

    — Isso! Mas por quê? Quantas sílabas fortes ele tem?

    — Dizem que quatro ou cinco, ou algo assim.
    Mas na verdade, não sei contar e nem me importo.
    Não sou matemático, não sou engenheiro,

    pra conceber a poesia como um jogo de jambos e troqueus
    como alguém que brincasse de Lego.

    Eu leio o poema, eu ouço o poema,
    e ele me soa como uma canção.
    E isso me basta.

    O que ele causa em mim, me basta.
    Não faço questão de qualquer análise ou —
    Deus me livre! — interpretação.

    Deixem o poema ser o que ele é.
    Deixem o poema em paz.

  • eita, mais um

    1. um título de doutor
    ou a posição consagrada
    nada fazem pelo caráter
    ou pela visão de mundo
    de ninguém:

    pau que nasce torto
    morre torto.

    2. sugiro trocarem
    todas as janelas
    do prédio do meio
    por espelhos:
    vai continuar
    um inferno abafado
    mas assim,
    os grandes sábios
    melhor podem apreciar
    seu próprio ego
    incomensurável.

  • mais uns

    I.
    Filosofia é masturbação
    E crítica literária é gozar com o pau alheio.
    (máxima a ser escrita numa porta de banheiro da fflch)

    II.
    Filosofia é mesmo masturbação,
    Mas não posso negar que gosto
    de bater punheta.

  • uns poemas sobre poética

    que não me creio mais postar

  • materialismos

    3.6.2022, gegen 06:15
    (als ich plötzlich erwachte)

    MATERIALISMUS

    In der Morgendämmerung
    habe ich heute aus meinem
    Fenster, Venus zwischen
    zwei Hochhäusern gesehen.
    Heißt es Glück in der Liebe?
    Nein, es war bloß ein Gestirn.

    ***

    (ao acordar de repente)

    MATERIALISMO

    Hoje ao amanhecer
    da minha janela
    vi Vênus entre
    dois prédios.
    Quer dizer sorte no amor?
    Não, era apenas um astro.

  • ode ao leite de magnésia

    a oitava maravilha do mundo
    o elixir dos elixires
    a panaceia última e universal
    há de ser o antiácido

    com sua textura leitosa
    de branca suspensão
    e dispersão coloidal

    agito bem o frasco e
    torço por sua vitória
    contra as chamas infernais
    como o estudante
    que pela primeira vez
    tem de balancear
    uma reação ácido-base

    então alcanço
    a serenidade de saber
    que o mundo se acaba
    em sal e água.