Category: Uncategorized

  • schädle

    dizem que o grande goethe
    em sua escrivaninha em weimar
    — ou são tomé das letras,
    o que dá na mesma —
    tinha sobre sua escrivaninha
    além de uma medusa sem graça
    o crânio de seu amigo schiller:
    a única criatura no mundo
    viva ou morta
    capaz de entender a segunda parte
    do seu fausto.

    mesmo poetas geniais
    têm ossos do ofício.

  • 10 na prova de lírica

    — e que tipo de poema é esse?

    — uma canção.

    — Isso! Mas por quê? Quantas sílabas fortes ele tem?

    — Dizem que quatro ou cinco, ou algo assim.
    Mas na verdade, não sei contar e nem me importo.
    Não sou matemático, não sou engenheiro,

    pra conceber a poesia como um jogo de jambos e troqueus
    como alguém que brincasse de Lego.

    Eu leio o poema, eu ouço o poema,
    e ele me soa como uma canção.
    E isso me basta.

    O que ele causa em mim, me basta.
    Não faço questão de qualquer análise ou —
    Deus me livre! — interpretação.

    Deixem o poema ser o que ele é.
    Deixem o poema em paz.

  • eita, mais um

    1. um título de doutor
    ou a posição consagrada
    nada fazem pelo caráter
    ou pela visão de mundo
    de ninguém:

    pau que nasce torto
    morre torto.

    2. sugiro trocarem
    todas as janelas
    do prédio do meio
    por espelhos:
    vai continuar
    um inferno abafado
    mas assim,
    os grandes sábios
    melhor podem apreciar
    seu próprio ego
    incomensurável.

  • mais uns

    I.
    Filosofia é masturbação
    E crítica literária é gozar com o pau alheio.
    (máxima a ser escrita numa porta de banheiro da fflch)

    II.
    Filosofia é mesmo masturbação,
    Mas não posso negar que gosto
    de bater punheta.

  • uns poemas sobre poética

    que não me creio mais postar

  • materialismos

    3.6.2022, gegen 06:15
    (als ich plötzlich erwachte)

    MATERIALISMUS

    In der Morgendämmerung
    habe ich heute aus meinem
    Fenster, Venus zwischen
    zwei Hochhäusern gesehen.
    Heißt es Glück in der Liebe?
    Nein, es war bloß ein Gestirn.

    ***

    (ao acordar de repente)

    MATERIALISMO

    Hoje ao amanhecer
    da minha janela
    vi Vênus entre
    dois prédios.
    Quer dizer sorte no amor?
    Não, era apenas um astro.

  • ode ao leite de magnésia

    a oitava maravilha do mundo
    o elixir dos elixires
    a panaceia última e universal
    há de ser o antiácido

    com sua textura leitosa
    de branca suspensão
    e dispersão coloidal

    agito bem o frasco e
    torço por sua vitória
    contra as chamas infernais
    como o estudante
    que pela primeira vez
    tem de balancear
    uma reação ácido-base

    então alcanço
    a serenidade de saber
    que o mundo se acaba
    em sal e água.

  • azia

    a boca do estômago
    é como a porta do inferno
    — desguarnecida —

    por onde cáusticas labaredas
    sobem nos lambendo as entranhas
    ávidas por escapar pela boca
    ou quiçá
    pelas ventas

  • ode à psiquiatria

    queria ter a serenidade dos psiquiatras
    (ou traficantes, como diria um amigo meu)
    que na maior tranquilidade te prescrevem
    x, y, z, e te fazem acreditar que
    dessa vez vai ficar tudo bem.

    tudo bem, eu já aceitei que
    preciso de medicamentos
    eles tornam minha vida um pouco
    mais suportável.

    já desisti de procurar diagnóstico
    ter uma página do DSM
    pra chamar de minha.

    já aceitei que preciso de terapia
    como a vida precisa da água
    pra fazer da tempestade
    uma gota d’água.
    (ainda que apoiado em mais muletas
    do que tenho de braços a suportar)

    só não me enganam
    os psiquiatras descarados
    que me testam pra saber
    quanto eu, acostumado a ser
    objeto, pagaria pra confiar
    que todos meus problemas
    seriam resolvidos por um sujeito
    qualquer.

    mais provavelmente,
    os motivos são mais banais.

    meu primeiro psiquiatra — aos dezesseis anos —
    quis dar uma de louco pra cima de moi:
    que cor é esse carimbo? — Amarelo.
    E se eu disser que não? Como você vai provar?

    Pobre doutor. Respirei do fundo da minha modéstia colegial.
    E o poupei de uma boa aula de física. Poupei o miserável
    de uma aula de filosofia. Poupei-o até de Goethe.
    Ele não entenderia mesmo.

    Diga-se: minha tia com a oitava série resolveu meu problema
    que um médico metido a besta não resolveu.

    Aliás, eu queria uma palavra em português
    que equivalesse a „shrink“, porque acho
    muito expressiva. Talvez seja mesmo
    traficante.

  • confesso

    que tenho tomado comprimidos efervescentes
    só pelo prazer de assistir à efervescência>

    essa brancura mais branca
    que a parede do prédio do outro lado da rua
    reagindo com a água gelada
    se desfazendo na fronteira com o ar

    pelo mesmo motivo gosto também
    da água com gás