Category: Uncategorized

  • familie guckert

    com os olhos brilhantes diante de
    quatro receitas psiquiátricas
    cada vez entendo
    e me descubro mais
    minha avó
    que padeceu anos
    depressiva na cama
    antes de alcançar
    o único descanso possível.

    as juntas dos dedos machucadas
    de tanto bater na parede
    pra que fosse atendida
    o vício em balas escondidas
    na palma da mão, pra depois.

    o vício em benzodiazepinas:
    „por favor, alguém me dá um apraz!”
    hoje tão bem quanto ainda ouço
    posso repetir em uníssono:
    „oh Weier, oh Weier, oh Weier!”
    „Na Oma, wie geht es dir?
    Schlecht.”

    Immer schlecht.
    Eu não teria outra resposta.

    Até os pés inquietos herdei.
    E o ceticismo fatal
    „Ach, ihr weißt doch gar nichts —
    das ist alles Quatsch.”

    Se ao menos pudesse dizer:
    „Ja Oma, du hattest Recht.
    Du hattest schon immer Recht.“

  • duas peças para uma rede social finada

    carreiras de conversas mortas
    nos cemitérios das redes

    festa numa sala escura, abafada
    onde todo mundo fala
    mas não se ouve nada
    além do ruído boca-a-boca
    de quem fala mais alto
    pelos cantos murmúrios
    tacitamente percebidos
    quando não ignorados
    por completo
    cadáveres moribumbos
    que o feed há de logo sepultar

    do lado de caá
    faz frio e silêncio

    na grande ágora universal fala-se,
    mas ninguém ouve
    grita-se, mas o mundo é surdo

    *
    piador

    algumas linhas para o finado twitter
    piapiando aqui deste poleiro
    só recebo é a caca que cai
    dos poleiros de cima

  • herzelein

    Não há o que fazer com o coração.
    É uma caixa preta.
    Não há transplantes, nem enxertos
    de sentimentos.

    Não se pode dize-lo por que bater,
    e é tola a pretensão de querer
    bancar a pantomima do maestro:
    não há gestos nem batuta
    capazes de impor ritmo
    a um coração alheio.
    Não há o que fazer.
    É preciso aceitar as leis da natureza

    de que algumas cavidades
    só ressoam a uma determinada
    e precisa frequência.

    A harmonia
    é tão simples
    quanto é rara.

  • mais um caso

    o amor nas nuvens
    e acima dele pairante
    a questão pluviosa

    não sei prever o tempo
    mas sei que em algum momento
    vai chover

    podem ser gotas de chuvisco
    pode ser chuva torrencial
    se penso bem, acho que
    melhor chuvisco eventual
    que uma grande tempestade

    mas mais difícil é saber se vou

    me guardar da chuva
    dançar nu na chuva
    ou deixar que a chuva arda
    sobre minha carne
    escalpelada

  • avencas

    para th.

    avencas são mesmo plantas difíceis de cuidar
    claro que eu não escolheria nada mais fácil
    jardineiro amador que sou, esqueço
    que às vezes a gente sufoca as plantas
    com água demais

    lembro que você disse que ia salvar a avenca
    porque já tinha salvado outra antes
    mas no fim, nós dois esquecemos dela

    do pé de pimenta que você me deu
    cuidei, enquanto pude
    da última vez que o vi
    entre as flores e as folhas gosmentas
    o vermelho corava, timidamente

    queria saber se ele também murchou
    ou ainda é capaz de dar frutos ardentes
    queria saber
    se você ainda acredita ser capaz
    de salvar avencas

    ou se é mesmo chegada a época
    de plantar sementes
    em novos vasos

  • lei de ohm

    vais me perguntar
    por quê?
    e vou te dizer
    não sei

    procuro um adaptador
    de pinos redondos
    para pinos chatos plugáveis
    num transformador
    220 pra 110
    pra ligar a lâmpada
    que pende
    sobre a minha cama

    não acho
    e também não importa
    não vai ser uma luz mais fraca
    a afagar o meu vazio

    amanhã
    corto o fio com os dentes
    faço uma gambiarra
    uma ligação direta
    isolo porcamente com fita
    e nem por isso
    viverei mais feliz

  • jejum

    sonhei que entravas pelo portão
    de uma casa que não mais habito
    dormíamos juntos na sua cama
    no chão de uma casa que desconheço
    estavas de volta e tudo era leve
    e isso era tudo.
    e eu sabia do fim, que passaríamos
    como tudo passa.

    acordei lembrado que você
    nem ligava pra sonhos não.

  • presságios

    latim chuva vendaval apagão
    destelhamento desconexão
    mais latim, busca por rede,
    email às pressas
    meia noite e meia
    ao chegar em casa
    no escuro desprovido de luz elétrica
    vi a leste nascer detrás de um morro marte
    o deus da guerra, vermelhinho
    a sudoeste vi um satélite:
    duas luzinhas num eixo fixo
    cruzando a minha constelação
    do escorpião
    enquanto fumava
    na claridade lunar
    vi as nuvens subindo
    vi o tempo fechar

    tomei meus calmantes
    amanhã é cedo!
    sete horas deus me livre
    encaixotei minhas coisas
    papelão, caneta, muita fita
    mais meio rivotril, pra garantir

    deixei uma vela acesa no corredor
    ao lado: um isqueiro e outra vela, pra repor.
    vai que… não custa, sabe-se lá

    antes de me deitar vi pela janela do quarto a lua quase cheia
    quase se pondo
    atrás de outro morro.

    amanhã é cedo!
    já zonzo, apago as velas do quarto
    me tampo
    encosto a cabeça no travesseiro
    e durmo
    enfim.

    Rio do Sul,
    30 de junho de 2020

  • setembro

    a luz faltou de novo
    essas chuvas quase mornas
    bem parecem a anunciação da primavera

    a luz faltou de novo
    ao longo do dia quatro ou cinco piscadas sinais
    nos telegrafando os efeitos dos temporais na região
    esta noite sonharei com enchentes

    a luz voltou em uma hora, dispensando pela metade
    os ofícios de antigo ritual doméstico

    a luz voltou em um minuto, talvez a avaria a consertar
    fosse mais próxima que esperado

  • rolos de filme

    dentre minhas primeiras memórias
    que remontam a pouco antes
    da virada do milênio, estão:
    a lata em que sentava sobre a cadeira
    pra poder alcançar a mesa

    o computador do meu tio,
    talvez windows 3.1
    cujo papel de parede ainda posso ver
    sempre que fecho os olhos

    o aparelho de som
    e tudo que com ele tinha a ver:
    as fitas cassete em inglês
    donde ecoavam intermináveis
    exercícios de listening
    com que se debatia minha mãe

    mas talvez a primeira de todas
    na calçada de mosaico verde e vermelho
    sentado ao degrau e tendo nas mãos
    o único artefato que conseguia me acalmar:
    uma câmera fotográfica

    vim a ter outra, também a filme e manivela
    que não teve mais conserto
    mas posso dizer, que tal como câmeras
    (porque o são, em tempo real)
    os olhos bem me acompanharam pela vida
    e aqui se revelam pela primeira vez
    alguns dos meus primeiros negativos.